quarta-feira, 1 de março de 2017

Rock Brasil: camisa de vênus, los djangos...


1)camisa de vênus, hoje
2)Los Djangos, Raiva Contra O Oba-oba
3)for from alaska, deadmen
4)gueto, estação primeira
5)velhas virgens, uns drindres
6)mundo alto, cheios
7)Rita Lee - Mamãe Natureza
8)luxúria, ódio
9)cachorro grande, você faz continuar
10)churrasco elétrico,  impostores
11)dead fish, queda livre













































Eclipse lumar solar - 26/02/2017

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Micropaíses



1.barbuda e antígua
2.são cristóvão e névis
3.dominica
4.barbados
5.santa lúcia
6.são vicente e granatinas
7.mônaco
8.liechtenstein
9.andorra
10.san marino
11.vaticano
12.malta
13.granada
14.são tomé
15.seychelles
16.barein
17.maldivas
18.micronésia
19.cingapura
20.palau
21.ilhas marshall
22.nauru
23.tuvalu
24.kiribati
25.tonga

domingo, 19 de fevereiro de 2017

foguete Falcon 9

#Espaço #NASA | Momento do lançamento do foguete Falcon 9, levando a nave espacial Spacex Dragon, com suprimentos para a estação espacial internacional. Em breve o vídeo completo, com mais de 30 minutos com todo o preparativo.
Fonte: NASA

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Rádio Backstage

O programa backstage da rádio kiss fm de São Paulo apresentado pelo Vitão Bonesso, o backstage tem uma página com duas rádios web dedicado ao rock que são heavy rock e classy rock



clique aqui

Aspectos da trajetória do planejamento urbano no Brasil


Ídolos do rock: Kings of Leon

no programa ídolos do rock da rádio kiss fm de São Paulo apresentado pelo Walter Ricci, grande banda de Tennessee nos EUA, Kings of Leon, algumas músicas que ouvi quando abri o aplicativo:

1)sex on fire
2)use somebody
3)manhattan
4)radioactive
5)supersoaker
6)waste  a moment
7)around the world






 


 


 





sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Eclipse + cometa

hoje tem dois eventos astrônomicos, o primeiro deles é o Eclipse Lunar Penumbral, o primeiro do ano, o seu ápice acontece à 00:44 pelo horário internacional (já dia 11), porém, aqui no Brasil, o ápice
 acontece às 22:44 (pelo horário de verão), ou seja, ainda será dia 10 para nós. poderá ser visto nas Américas, na Europa, na África, e até mesmo na maior parte da Ásia. Além  do eclipse, teremos outro evento astronômico o cometa 45P/HMP (45P / Honda-Mrkos-Pajdusakova) está se aproximando cada vez mais da Terra, e no dia 11 de fevereiro, ele chegará a apenas 13 milhões de quilômetros do nosso planeta, observaremos uma bola de gelo de 1 quilômetro de largura.
A última aparição desse cometa  foi feita  no dia 31 de dezembro de 2016, por Michael Jäger, de Stixendorf, na Áustria, e nos mostra o cometa 45P/HMP quando ele estava dando a volta ao redor do Sol antes de vir na direção da Terra. Desde então, o núcleo gelado desse cometa foi aquecido pela radiação solar, o que faz com que ele sublime, ejetando gás e iluminando a atmosfera verde do cometa. Por que verde? Porque o núcleo de vaporização do cometa emite carbono diatômico,
C2, um gás que brilha na cor verde quando exposto no vácuo do espaço.
Este é o link pra acompanhar http://www.galeriadometeorito.com/2012/10/iss-live.html

A transmissão ao vivo do cometa 45P/HMP terá início à 1:30 pelo horário de verão brasileiro (03:30 UTC), logo após o fim da transmissão ao vivo do eclipse (já no dia 11 de fevereiro), e estará disponível logo abaixo:




Transmissão ao vivo - Eclipse Lunar Penumbral de 10 de fevereiro

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

"Na guerra você faz coisas que jamais poderia imaginar"

Da ESPN

Por Gustavo Hofman

Conhecer Sarajevo foi uma das experiências mais edificantes que já tive. Em 2011 visitei a capital da Bósnia-Herzegovina e senti os horrores da guerra.

Os prédios ainda destruídos.

As marcas de balas pelas paredes.

Os cemitérios improvisados e espalhados pela cidade.

O ódio e a dor ainda latentes na fala dos bósnios.

Aconteceu tudo há pouco tempo.

Nunca gostei de visitas guiadas. Sempre tive prazer em colocar a mochila nas costas e ao lado da esposa desbravar países.

Só que em Sarajevo era diferente. Soube antes que valia a pena conhecer a capital bósnia pelo olhar de alguém local. Porque todos ali viveram a guerra.

A Ajna era uma mulher de 20 anos, não mais do que isso. Madura como uma senhora de idade. Na guerra, foi uma criança de cinco anos que sofreu.

Cresceu em escolas subterrâneas, tentando ter uma vida normal. Acostumou-se a interromper as brincadeiras de rua quando as sirenes tocavam. Ou quando as sirenes não tocavam e as bombas explodiam ao redor matando seus amigos ou familiares.

Contou, sem qualquer lágrima no rosto, as dores que sentiu, as perdas que teve. Era capaz de carregar barris de água com o dobro do peso dela. Uma criança de cinco anos.

Eu, ingenuamente, a questionei "como". Ela, com o mesmo semblante sério e triste de toda visita, calmamente respondeu: "Na guerra você faz coisas que jamais poderia imaginar".

Diversos jovens que se tornariam jogadores sofreram com isso. Contei no meu livro "Quando o futebol não é apenas um jogo" a história de Edin Dzeko, por exemplo.
Nesta semana, ao assistir o filme sobre a vida de Dejan Lovren, produzido pela Liverpool TV, me lembrei da Ajna. Das palavras dela.
Lovren teve a oportunidade de fugir do país quando era criança, graças ao avô que vivia na Alemanha, o que não impediu que a guerra marcasse para sempre sua vida.

Penso em Aleppo. Lembro dos refugiados chegando na Europa pelo Mar Mediterrâneo. Reflito sobre o radicalismo político. Recuso a acreditar em decisões de barrar famílias.

Em 2009, não chorei em Sarajevo. Hoje, pais de duas lindas crianças, tenho certeza que choraria.
Clique aqui ver o video

O que restará do Brasil após a Lava Jato?

Excelente matéria do blog O Cafezinho  explicando o que está passando no Brasil.

Por Miguel do Rosário

Explicar a política brasileira para o publico estrangeiro é tão difícil quanto traduzir Guimarães Rosa. É difícil explicar mesmo aos brasileiros, porque as verdades factuais mais singelas são diariamente soterradas sob toneladas de mentiras. Em geral, o público, doméstico ou estrangeiro, atêm-se às generalidades. Mas a verdade, assim como o diabo, mora nos detalhes, nas entrelinhas.
O Partido dos Trabalhadores (PT), que foi apeado do poder pelo impeachment, divulgou um comunicado, assinado por Carlos Zarattini, sua liderança na Câmara, que revela a esquizofrenia e caos que acometeu o sistema político brasileiro. O texto denuncia o governo Temer, acusando-o de “patrocinar um conjunto de manobras para literalmente bloquear Operação Lava-Jato, preservando assim o PMDB e o PSDB das investigações da força-tarefa”.
O título do artigo é: “Governo Temer quer acabar com Lava-Jato e entregar riquezas nacionais aos estrangeiros”
Acontece que a Lava Jato, que o lider do PT na Câmara agora defende com tanta garra das “manobras” do governo, é a mesma que acusa Lula de ser o “comandante máximo” dos esquemas de corrupção investigados pela operação.
O próprio PT, através de seus principais dirigentes, quadros e militantes, vários de seus parlamentares, além de seu presidente de honra, fundador, e candidato definido para as próximas eleições presidenciais, o ex-presidente Lula, vem denunciando a Lava Jato como uma operação desonesta, de natureza político-partidária, que tem agora como objetivo principal tirar Lula do páreo em 2018.
Como explicar, portanto, que o mesmo partido que acusa o governo Temer de querer “acabar” com a Lava Jato é também o partido mais prejudicado e mais perseguido pela Lava Jato. Pesquisas de opinião recentes demonstram que, apesar da operação ter atingido vários partidos, a grande maioria da população associa à Lava Jato ao PT. E foi justamente a Lava Jato que produziu a atmosfera de terror político e econômico, ao paralisar e destruir setores inteiros da economia, que levou ao impeachment.
A explicação é dura, mas simples: o PT se tornou como uma daquelas galinhas das quais se corta a cabeça. Elas continuam correndo para cá e para lá, desgovernadas, agitadas, sem saber, porém, para onde correr. E não é de hoje.
O público estrangeiro precisa entender o seguinte. O problema do Brasil não é a corrupção. A era petista foi um dos momentos com menos corrupção da nossa história. O governo federal inaugurou instrumentos de transparência que nunca existiram antes. Foram criadas agências de controle de gastos e combate a desvios que também não existiam. E, sobretudo, as instituições encarregadas de investigar a corrupção nunca tiveram tanta autonomia, recursos e apoio político, como a Polícia Federal e o Ministério Público. Foi o PT que criou toda a legislação anticorrupção que, em seguida, seria usada pelas instituições para destruir o próprio PT.
As estimativas de desvios feitas pela Lava Jato são inteiramente exageradas, com objetivo de produzir factoides de grande impacto na mídia. Era preciso criar uma narrativa, o de que a Lava Jato havia desbaratado a “maior corrupção da história”. Mentira. Não foi maior nada. Esse ranking de “maior da história” é absurdo, porque seria necessário que houvesse uma investigação similar em outro momento, e não houve, e que os valores fossem atualizados pela inflação, pelo tamanho do PIB, etc.
Em palestra recente na universidade de Columbia, patrocinada pela fundação Lemann, pertencente ao homem mais rico do Brasil, o juiz Sergio Moro admitiu que a Lava Jato provocou instabilidade, mas que, no futuro, isso se reverteria para o bem do Brasil, que se tornaria “mais competitivo”.
No encontro de Davos, que reúne grandes empresários e chefes de Estado do mundo inteiro, o presidente Michel Temer não estava lá. O principal representante do Brasil foi o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que foi abraçado pelo presidente do Paraguai (cujo governo nasceu também de um golpe), e deu uma entrevista afirmando que a Lava Jato é “pró-mercado”.
O desastroso efeito sistêmico provocado pela destruição das grandes empresas brasileiras de construção civil era óbvio, mas a loucura política instalada pelo impeachment cegou a todos. Os representantes da Lava Jato hoje procuram justificar a sua irresponsabilidade com argumentos ideológicos: a Lava Jato é pró-mercado e levará o Brasil a ser mais “competitivo”.
Além da destruição da economia, o efeito mais curioso da Lava Jato foi ter levado ao poder a nata da escória da política brasileira, incluindo aí um monte de investigados pela própria operação.
Aliás, isso explicaria a esquizofrenia da liderança do PT na Câmara. Setores do partido acreditam – com uma ingenuidade inacreditável – que a operação agora poderia atingir o PSDB e o núcleo duro do governo. O governo Temer, aproveitando o oportuníssimo acidente que vitimou o ministro Teori Zavascki, nomeou para o seu lugar o seu ministro da Justiça, Alexandre de Moraes. A nomeação deverá ser facilmente confirmada por um Senado repleto de investigados pela própria Lava Jato. O próprio novo ministro do STF também é investigado pela Lava Jato.
A nomeação de Moraes, é importante ressaltar, foi acertada com a Globo, que está dando total apoio, como demonstra as posições de Merval Pereira, que representa a voz do patrão. A Globo sabe que não se trata de “acabar com a Lava Jato” e sim de mantê-la focada no PT – e prender Lula.
Outra confusão provocada pela transformação do debate político nacional num boletim da Lava Jato é que as pessoas falam em “delatados”, “investigados”, como se isso fosse uma figura penal associada à condenação. Não são. Ser “delatado”, ou “investigado”, não significa nada, porque é preciso provas.
As “delações” da Lava Jato são um capítulo à parte da política brasileira. Desde 2014, estabeleceu-se uma cumplicidade criminosa entre a Lava Jato e a grande imprensa, e pedaços de delações, antes mesmo de serem homologadas, em alguns casos antes mesmo de existirem (surgiam notícias sobre delações que ainda iriam acontecer), eram divulgados seletivamente à mídia. E tudo isso cumpria uma agenda estritamente política, voltada a fortalecer o discurso pró-impeachment e adensar as manifestações de protesto.
A quantidade de ilegalidades cometidas pela Lava Jato é inesgotável. Para começar, as prisões preventivas foram transformadas em instrumentos de tortura. O sujeito apenas poderia ter esperança de responder o processo em casa se aceitasse delatar, e a delação tinha de ser aquela desejada pela Lava Jato. Alguns importantes empresários da indústria da construção civil, responsáveis pelas principais obras de infra-estrutura do país, foram mantidos presos por mais de um ano, porque se recusaram a entregar no jogo de delação imposto pela Lava Jato. No caso da Odebrecht, a ira da Lava Jato pelo fato de seu presidente, Marcelo Odebrecht, ter se recusado a delatar Lula, foi tão grande, que a maior empresa de engenharia da América Latina foi literalmente pulverizada. Os operadores da Lava Jato, não satisfeitos em destruir os negócios da Odebrecht no Brasil, viajaram aos Estados Unidos para entregar informações sensíveis da empresa (fizeram o mesmo com a Petrobrás) às autoridades do Departamento de Justiça daquele país. O resultado é que a Odebrecht está sendo expulsa de todos os países em que possuía negócios.
A resposta da Odebrecht à violência de que foi vítima foi divulgar uma mega-delação, na qual derruba a narrativa central da operação, que punha Lula no centro decisório do esquema. A Odebrecht acusa os principais dirigentes do partido agora no governo, incluindo Michel Temer, além de próceres do PSDB, de receberem propina.
A resposta do destino à intenção da Odebrecht foi a morte de Teori Zavascki, e a entrada de Alexandre de Moraes, no STF, como revisor da Lava Jato…
Eike Batista, magnata falido, e Sergio Cabral, ex-governador do estado do Rio, também foram presos pela Lava Jato, num grande espetáculo midiático, e agora estão à espera de poderem fazer delação premiada. Não será nenhuma surpresa se corroborarem a tese preferida dos procuradores, ou seja, se apontarem o dedo para Lula.
O problema é que a Lava Jato não encontrou nenhuma prova contra Lula, que sempre manteve uma vida muito simples, morando no mesmo apartamento, numa cidade operária, há mais de trinta anos. Sem provas, a Lava Jato tentou, durante todo esse tempo, com ajuda de uma mídia histérica, acusar Lula de ser dono de um apartamento no Guarujá. Mas não tem provas disso. Lula explicou que cogitou, sim, em adquirir o apartamento, mas que decidiu não fazê-lo. É um apartamento simples, num prédio de classe média, numa área desvalorizada de uma cidade considerada fora de moda pela elite paulista. A imprensa explorou o fato de ser um “triplex”, sem jamais especificar que se trata do menor triplex de todos, com menos de cem metros quadrados, como se fossem três apartamentos minúsculos empilhados. A outra acusação a Lula é de que seria dono de um sítio em Atibaia, que ele frequentava. Também não há provas. O sítio pertence a um antigo amigo de Lula.
A Lava Jato acusa Lula de receber esse apartamento (que não é dele) e o sítio (que também não é dele) como propina pelos esquemas de corrupção na Petrobrás. Lula seria, neste caso, o corrupto mais modesto do mundo, ao pedir tão pouco por um esquema que, segundo a Lava Jato, movimentou bilhões de reais.
Enquanto a imprensa brasileira só fala de Lava Jato, e os partidos, à esquerda e a direita, tentam empurrar, um para o outro, a pecha de querer “acabar com a Lava Jato”, o regime político instalado pelo governo Temer deu uma guinada fortíssima à direita, congelou gastos em saúde e educação por vinte anos, destruindo ou reduzindo drasticamente qualquer tipo de política pública voltada para o desenvolvimento, tecnologia, moradia popular, programas sociais. Está cancelando projetos voltados para a indústria nacional. Afastou-se dos Brics. Praticamente cortou relações com países mais pobres, em especial na África, com os quais o Brasil tinha iniciado relações comerciais extremamente vantajosas para os exportadores brasileiros, em especial de produtos manufaturados. Os bancos públicos nacionais, principais responsáveis pelo Brasil ter resistido incólume à crise financeira que arrastou o mundo a partir de 2008, estão sendo reduzidos ou mesmo desmontados. A TV pública foi reduzida a escombros, e o pouco que resta dela perdeu qualquer resquício de autonomia e se tornou mera repetidora de notícias de interesse do governo.
O Brasil que surge da Lava Jato e do impeachment não é, definitivamente, um país mais “competitivo”, como quer Sergio Moro, nem “pró-mercado”, como pretende Rodrigo Janot. É uma economia arruinada, sem perspectivas, com instituições caóticas, agindo por contra própria. O judiciário passou a cassar resultados eleitorais sem nenhum pudor. Vereadores, deputados e senadores são presos sem que saibam de que são acusados, muito antes que possam se defender. Hoje eu fico sabendo, por exemplo, que o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, teve seu mandato cassado. O Rio de Janeiro, que já estava sem liderança desde que Pezão licenciou-se para tratar de um câncer, agora fica ainda mais desamparado, à mercê das artimanhas do governo federal, que tenta chantagear o estado para impor por aqui a privatização da Cedae (estatal de água).
Também hoje, um juiz baixou uma liminar que derruba a nomeação de Moreira Franco para um novo ministério criado só para ele pelo governo, com objetivo de lhe dar foro privilegiado e fazê-lo escapar das garras de Sergio Moro.
Ora, independente do caráter de Temer ou de Moreira Franco, o judiciário brasileiro está fora de controle. Fizeram a mesma coisa com Lula, impedindo-o de ser ministro. O judiciário avocou para si a responsabilidade de autorizar quem pode ou não ser ministro, e qual eleição pode ou não ser válida. Tudo isso antes de qualquer julgamento ou condenação, claro, porque senão não teria graça. Julgamentos demoram muito!, reclamam juízes e procuradores.
Talvez Sergio Moro esteja certo: o Brasil ficará mais competitivo no futuro, mas será porque terá de impor freios democráticos a juízes, procuradores e delegados. O Brasil precisa de autoridade, mas de uma autoridade chancelada democraticamente, através de eleições livres, justas, periódicas e competitivas. Este país de delatores, procuradores e juízes justiceiros não permitirá que a economia respire e está, de antemão, condenado ao fracasso.
O Rio foi uma das principais vítimas da Lava Jato. Antes dela, tínhamos uma próspera indústria de navegação, uma pujante indústria de petróleo e gás. Os portos foram renovados, com instalação de novas indústrias do setor químico e siderúrgico em áreas próximas aos terminais de embarque, e construía-se, em Itaboraí, a Comperj, a maior refinaria da América Latina. Tudo isso foi bruscamente paralisado, abandonado ou destruído. A receita fiscal, naturalmente, desabou, e o estado hoje está literalmente quebrado.
A Petrobrás, sob a gestão de Pedro Parente, indicado pelo governo Temer, iniciou uma campanha brutal de desnacionalização, inclusive discriminando empresas brasileiras, o que imagino será bem difícil para um estrangeiro acreditar, porque, de fato, não parece racional. Para a retomada das obras da Comperj, por exemplo, a Petrobrás não permitiu a inclusão de nenhuma empresa nacional.


sábado, 4 de fevereiro de 2017

Mino Carta: companheira Marisa





Neste momento de dor extrema, CartaCapital está ao lado de Lula, e desta vez não é por razões políticas. Tanto mais fortes as minhas, amigo leal e sincero do casal há 39 anos. Nos últimos tempos, Marisa me vem à mente amiúde, e a vejo moça que acena da porta de um bar enquanto o marido toma um derradeiro gole de pinga com cambuci. E eu me vou a bordo de um carro da reportagem de IstoÉ. É imagem nítida, bem gravada na memória, e alegre com um leve travo de melancolia.
Conheci Marisa pouco mais de um mês depois de minha primeira entrevista com Lula. Logo o entrevistado convidou-me a visitá-lo em sua casa no alto de um morro, atrás da fábrica da Volkswagen de São Bernardo, modesta casa térrea, no quintal brincavam os filhos e um Dom Quixote esculpido em madeira campeava na estante da sala. Lula mandava no sindicato, mas a mulher era a chefe da família.
Agrada-me ter sido o primeiro jornalista a perceber o carisma de Lula, o extraordinário tino político, o QI elevado. Começo de fevereiro de 1978, diretor de redação de IstoÉ, dediquei a ele uma capa, cuja chamada dizia: “Lula e os Trabalhadores do Brasil”. Resultava de uma visita ao sindicato, acompanhado pelo repórter Bernardo Lerer, e de uma conversa de duas horas.
Quando chegamos, o presidente veio ao nosso encontro, e às costas dele vi um quadro de Pelizza da Volpedo, em tamanho natural, intitulado O Quarto Poder, e o pintor não se referia à imprensa. Pareceu-me que Lula saíra da moldura para nos receber. Um ano depois, quando da greve de 79, a primeira publicação a trazer a personagem para as suas páginas com o devido destaque foi a revista Time.
A ex-primeira dama, chefe da família Lula da Silva, combateu ao lado do marido mil batalhas. Sentiremos a sua falta
Marisa gostou muito da entrevista e a amizade nasceu ali. Conheci uma mulher firme e centrada, dotada ao mesmo tempo de rara gentileza d’alma. Ótima mãe, esposa impecável, não são palavras de ocasião. Encanta-me a origem italiana, que lá pelas tantas lhe valeu um passaporte. Chamava a avó de nonnina e ambas apreciavam pinga com cambuci.
Não consigo imaginar Lula sem Marisa, companheira de mil batalhas. Recordo uma tarde de outubro de 1989, tempo da campanha eleitoral das eleições presidenciais, fui entrevistar Lula na casa do alto do morro, comigo estava o perene parceiro Nirlando Beirão. Marisa nos ofereceu salgadinhos, e a cada fala do entrevistado anuía com terna cumplicidade.

Recordo uma noite de 1980, durante a greve que acabaria com a prisão de Lula, cativo aos generosos cuidados do delegado Romeu Tuma, que lhe propiciava lulas à dorée fornecidas por uma cantina próxima na hora do almoço. Todo dia, uma viatura da polícia ia buscar Marisa e os filhos e os levava em visita ao preso. Naquela noite, anterior de poucos dias à prisão, a casa de Marisa foi invadida por um grupo de políticos encabeçado pelo senador Teotônio Vilela, ele via na greve uma forma muito eficaz de enfrentar a ditadura, que mobilizara no cerco à Vila Euclides, o estádio de São Bernardo em comício permanente, brucutus, helicópteros e tropa armada para a guerra. Um cachorro entrou na sala, saído do quintal, e passou a lamber os sapatos senatoriais. Chegou Marisa e o enxotou com gesto rápido, quase na ponta dos pés, os dela e os do cão.
Muitas lembranças, um baú repleto. Nunca esquecerei Marisa. • 

Viagem pelo mundo

Viajar e amparar
Letícia Mello une o prazer de conhecer o mundo a trabalhos sociais


Por René Ruschel


 

Ao completar 10 anos de idade, Letícia Mello, gaúcha de Cruz Alta, havia morado em seis cidades, frequentado oito escolas e habitado em dez casas diferentes. O pai, engenheiro eletricista recém-formado, buscava uma oportunidade de trabalho e a cada nova oferta de emprego a família embarcava em uma aventura. “Gostava de embalar com a minha mãe os poucos pertences que tínhamos. Eu sabia como ninguém embrulhar copos com jornal e identificar as caixas com a palavra ‘frágil’ escritas à caneta.” Dos 12 aos 17 anos, Letícia morou em Curitiba, de onde saiu para estudar hotelaria e turismo na catarinense Balneário Camboriú.
Aos 18, resolveu ampliar seu espírito nômade e rodar o mundo. Primeiro, Estados Unidos, com direito a uma esticada até o Havaí. Depois Peru, Nova Zelândia e Austrália. Quando voltava da Oceania, durante uma escala na ilha de Bali, na Indonésia, encontrou seu destino. “Fiquei encantada pela cultura, hábitos e costumes do povo asiático. Sempre fui apaixonada pelo desconhecido e o que vi me fascinou sobremaneira.”

Sem dinheiro ou patrocínio, a gaúcha viaja pelo mundo de mochila. Nos Estados Unidos, chegou a trabalhar 90 horas por semana como salva-vidas, camareira e na limpeza de mesas em restaurante. O conforto cedeu espaço à liberdade e aventura. Letícia estava decidida a conhecer o planeta e ser simplesmente uma viajante. “Quando alguém pergunta de onde sou, respondo com um sorriso: ‘De lugar nenhum’.” A diferença é que, por onde passa, ela não se comporta como uma simples turista. Prefere fazer uma imersão nos costumes locais e viver como nativa. Não se limita aos pontos turísticos, mas procura algo concreto, deixar ao menos uma marca que reflita na vida dos outros. Não é à toa que seu projeto se chama “Do For Love” (ou “Faça por Amor”).
Seu encanto pela Ásia a fez ficar cinco dias trancafiada no apartamento em busca de uma alternativa para voltar ao continente. Propôs-se a ser voluntária em qualquer programa que custasse pouco ou quase nada. Não exigia benefícios, nem mesmo as passagens de ida e volta. Seu sonho era conhecer a realidade dos habitantes locais e ser útil.


Voluntária. A gaúcha deu aulas de inglês a crianças na Tailândia e liderou um mutirão para construir a casa de uma viúva no Camboja


Um projeto no oeste da Tailândia chamou sua atenção. Na província de Sakaeo, um vilarejo pobre e esquecido de pouco mais de 200 habitantes precisava de professores de inglês para crianças carentes. O objetivo era despertar o interesse delas pelo idioma e prepará-las para funções no setor de turismo, opção à miséria da agricultura ou à prostituição. Em menos de 60 dias, Letícia conhecia a escola Watputthisan e iniciava a experiência de servir por amor.
Durante o período em que viveu na Tailândia, a brasileira recebeu em troca moradia e comida (às vezes, um grilo frito no café da manhã ou um escorpião no almoço). “Gostei mais do escorpião”, brinca. “É mais crocante. Grilo tem o miolo meio mole.”

Sua renda não passava de 500 dólares por mês. Também ensinou inglês para um grupo de policiais e em uma escola de monges budistas. “Conviver com os estudantes budistas foi um grande aprendizado.” Depois de seis meses na Tailândia, Letícia repetiu a experiência no Camboja e no Vietnã.
No Camboja, a gaúcha investiu 400 dólares doados por amigos em um mutirão para construir a casa de uma viúva com dois filhos pequenos, abandonados pelos pais desde criança, com problemas de locomoção e que pediam esmola em frente a restaurantes. “A viúva vivia na comunidade e a escolha como beneficiária foi dos moradores e dirigentes do projeto.” Em troca, a mulher ficou responsável pela limpeza e manutenção da escola.


“Tive pena de mim mesma. Cresci com a ideia de que precisava de muito para ser feliz”


De volta ao Brasil, Letícia escreveu um livro, Do For Love, no qual

globalização perversa

Os seus exageros ajudaram a eleger Trump e produziram consequências desastrosas em vários países

Por Antônio Delfim Neto
 

A tribo dos economistas está inquieta. Alguns parecem estar perdendo a paciência e começam a concordar com Milton Friedman: “O banqueiro central é como um idiota no chuveiro: sempre tem dificuldade de encontrar a temperatura certa!” E, a partir daí, oferecem novas hipóteses teóricas. Assiste razão aos que exigem delas “robustas” provas de “causalidade” (exatamente o que a “velha” não tem), uma vez que na economia a fonte é o conhecimento empírico. O problema é saber se isso é possível num universo caprichoso – a sociedade –, cujos membros interagem num processo dinâmico de extrema complexidade, ao qual a revolução das comunicações deu novas dimensões.
O ponto interessante é que cada lado do debate apresenta coleções de artigos, com a mesma metodologia, a mesma pretensão científica e conclusões opostas.

Ao contrário da lógica, da matemática, das ciências “duras” e da biologia, que avançam com “novas” perguntas, a economia procura, desde tempos imemoriais, respostas às “mesmas” perguntas: 1. Por que algumas sociedades são capazes de explorar melhor o seu espaço e atender melhor às necessidades materiais dos seus habitantes? 2. Por que parecem ter um impulso interno que faz flutuar o nível de sua atividade e o emprego dos seus membros? 3. Qual é, afinal, o verdadeiro enigma no funcionamento de uma organização social que, pelo conhecimento de um sinal (os preços estabelecidos nos “mercados”), parece, às vezes, harmonizar o interesse do indivíduo com o coletivo?

Será possível que, depois de 2,5 mil anos de análise da sociedade, tenhamos chegado à conclusão de que, em matéria da sua administração material, nada sabemos e, portanto, tudo vale? Antes de responder, duas considerações. A primeira é uma dúvida: qual o efeito da divisão do trabalho na investigação dos limites da própria razão (na lógica, na matemática) e no conhecimento da natureza? Nelas, é mais do que evidente, a suprema especialização (saber cada vez mais de cada vez menos) gestou e acelerou o uso do conhecimento em nosso benefício. Há sinais, entretanto, de que mesmo nas ciências da natureza estamos chegando ao limite da especialização. Física, química, biologia e matemática (modelos e computação) vêm aumentando dramaticamente a sua cooperação na exploração conjunta de seus problemas. Tenho, hoje, a convicção de que a extrema especialização nas ciências sociais, em particular o “imperialismo científico” da economia, que defendíamos com unhas e dentes, esterilizou a nossa capacidade de entender como funciona a única atividade econômica, isto é, o trabalho (é dele que se trata!), que é intrínseco, poroso e impregna todo o comportamento social, o que tem consequência sobre a qualidade da política econômica.
A segunda está, de certa forma, implícita nas considerações anteriores. Newton “descobriu”, no século XVII, o maior segredo da natureza: como fugir dela? Calculou a velocidade de escape da Terra de um projétil lançado ao espaço sideral. Ela não tomou qualquer providência. Não teve “inveja” nem “ciúmes”, e não mudou seus “parâmetros”. Permitiu ao homem que, com eles, fosse à Lua no século XX.

Ainda me lembro da excitação que causou, quando republicado no Readings in the Theory of International Trade, o famoso artigo de P.A. Samuelson, “The Gains from International Trade”. Nele se “provavam”, analiticamente, os benefícios da globalização do comércio. As hipóteses eram irrealistas (mas quem se importa com elas?) e a conclusão sugeria que no mundo só haveria “ganhadores”. Externalidades custosas estavam escondidas na álgebra da teoria das vantagens comparativas. Os efeitos da distribuição assimétrica dos benefícios seriam desprezíveis, diante da expansão da riqueza por ela produzida. Pois bem: 77 anos depois do artigo, Samuelson relativizou boa.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Entrevista: ex-governador do RS Olívio Dutra



por Naira Hofmeister e Aray Nabuco 
Texto de abertura: Naira Hofmeister

Olívio Dutra é um personagem político histórico e folclórico no Rio Grande do Sul. Aos 74 anos, se desloca por Porto Alegre em uma bicicleta vermelha, cor que alimenta as paixões pelo Partido dos Trabalhadores (PT), do qual é um dos fundadores, e pelo Sport Club Internacional. Também usa frequentemente transporte coletivo, atitude que conquistou os gaúchos ainda no final dos anos 1980 quando foi eleito prefeito da capital Porto Alegre e, muitas vezes, ia dar expediente de ônibus.
Com uma trajetória pública relevante – foi deputado constituinte, governador do Estado e ministro das Cidades durante o primeiro governo de Lula – segue vivendo na Zona Norte de Porto Alegre, no mesmo conjunto habitacional de quando chegou na cidade, vindo da região das Missões, nos anos 1970. Ainda hoje, mais de dez anos depois de deixar seu último cargo público, se aparece em alguma cerimônia, é muito provável que seja o mais saudado entre as autoridades presentes – é dos poucos políticos de esquerda admirados inclusive por conservadores e antipetistas.
Nenhum jornalista local incumbido de entrevistá-lo vai a seu encontro sem saber o que o espera. Ainda assim, é difícil não se impressionar com o estilo de vida do “Galo Missioneiro”, apelido do político no Rio Grande do Sul. Na porta de entrada, no quarto andar do prédio (recentemente Olívio e a esposa Judite se mudaram para um apartamento no térreo, para evitar as escadas, eoantigo imóvel do quarto andar virou, então, local de trabalho e estudos do ex-governador), um emblema do Inter talhado em madeira tem, na parte superior, a estrela do PT. Ao redor do enfeite, guirlandas natalinas, como ainda convinha a um dezembro. Olívio abre a porta: “Olá companheira”, o “a” final meio arrastado. Veste bermudas e camisa de botões, com um avental vermelho, logotipo do Colorado no bolso tipo canguru. Nos pés, alpargatas calçadas ao estilo gaudério, com o tecido amassado sob o calcanhar. Paredes do quarto e sala são tomadas por caricaturas de Olívio assinadas pelos mais diferentes cartunistas brasileiros. Está lá a reprodução de uma daquelas últimas páginas da IstoÉ Senhor, do Millôr Fernandes, com uma piada sobre a gestão “popular” em Porto Alegre. Mas há quadros também com ilustrações do interior do Rio Grande do Sul e uma reprodução da capa de uma obra de Marx editada em alemão. Na mesa central, uma montanha de livros com debates atuais sobre o Brasil, a crise da esquerda, o golpe. Num canto, sobre uma mesinha de canto, todas as edições imagináveis de “Martín Fierro” – o clássico da literatura argentina, poema de José Hernández que narra em primeira pessoa a saga de um gaúcho. Olívio lamenta ter se afastado do curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) nesse último ano, para onde havia voltado para “se atualizar”, depois de décadas de formado. “Esse golpe me exigiu muito. Não consigo me concentrar nos estudos como gostaria”, explica.

O “Galo Missioneiro” é um voraz defensor de Dilma Rousseff, mas não poupou críticas à sua atuação como presidente e é incisivo nos comentários sobre a acomodação e a corrupção dentro do PT que ajudou a fundar. Em um primeiro momento, ainda com Dilma na Presidência, suas críticas alentavam militantes também descontentes com os rumos do partido, mas ao longo desse ano passou a ser criticado por uma parcela do PT gaúcho. Nessa entrevista, demonstrou muita cautela antes de expressar qualquer opinião sobre seus companheiros de sigla. “Tentamos fazer sempre a crítica acompanhada da autocrítica”, resumiu.
Por isso, por exemplo, não se restringe a condenar medidas de ajuste fiscal como as do governo em exercício de Michel Temer (e que tiveram início, de forma mais branda, com Dilma Rousseff). Para Olívio, o debate sobre finanças públicas está enviesado, muito centrado nos gastos e não nas receitas, coisa que ele avalia que poderia ter sido estimulado através do Or-çamento Participativo.
Na entrevista, aborda ainda os embates internos do PT e ideias para uma retomada, pelas bases, da esquerda e do projeto de socialismo democrático. Confira abaixo.
Aray Nabuco – Vou começar resgatando a história do PT. O senhor estava sentado na mesa de fundação lá em 1980, um quadro absolutamente histórico. O que sente de toda essa trajetória do partido, todas as novidades que o partido representou na administração pública inclusive, com aquele viço da luta política e a situação atual do PT?
Olha, eu tenho um sentimento dividido. Por um lado, o que representou o surgimento do PT, a sua constru-ção de baixo para cima, para a política, quer dizer, um desafio importante, um enfrentamento necessário, e isso é positivo. Por outro lado, um sentimento de perda enorme por nessa trajetória de 36 anos na institucionalidade, parece que se foi perdendo o caminho ou indo por outros rumos ou indo até por atalhos muito perigosos. Então, o meu sentimento é este.
Eu fiz parte da construção inicial do Partido dos Trabalhadores no final da década de 1970. Eu fiz parte da primeira Comissão Pró-PT. Evidente que naquela época, não preciso re-historiar, plena ditadura, e a maior concentração de trabalhadores, em especial trabalhadores metalmecânicos estava concentrada no ABCD, em São Paulo, não é? Mas nas outras regiões do País também tinha muita inquietação, não só entre os trabalhadores da indústria, nos diferentes ramos, em especial metalúrgico e automobilística, mas de outras categorias, o meu caso, eu fui bancário – na época presidia o Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, de 75 a 79 fui o presidente. E nós tínhamos uma movimentação grande de intercategorias, intersindical, contrária à vontade da ditadura – através das centrais oficiais e de algumas federações, eles armavam tudo que era ameaças ou impossibilidades – para que houvesse uma relação entre diferentes categorias para a luta contra a política econômica da ditadura e por liberdades, e por uma estrutura sindical que não fosse cópia da Carta del Lavoro italiana... Então, tinham lutas sérias e desaguou, no final da década de 70, para a criação do PT. Digamos, institucionalmente o PT passa a existir em fevereiro de 1980, mas antes disso já tinha uma luta em vários pontos, várias centrais, concentração de trabalhadores em diferentes regiões, aqui no Rio Grande do Sul era uma concentração importante de trabalhadores de diferentes categorias, Minas Gerais, São Paulo, Recife, Bahia, mesmo no Paraná. A coisa estava mais ou menos espraiada e é desse movimento de base que surge, que se consolida a ideia de um partido da classe trabalhadora brasileira. Para dar voz a quem não tinha voz e protagonismo ao povo na definição de que País queríamos. Não só sair da ditadura, acabar com ela, conquistar a democracia, a liberdade; acabar com as prisões políticas, lutar pela anistia ampla geral e irrestrita, lutar pela volta dos exilados, enfim, ao mesmo tempo que tratar coi-
sas além da derrubada da ditadura. Então, o partido exerceu um papel importantíssimo. Evidentemente que ele não surgiu, digamos, de geração espontânea e nem surgiu negando a história da classe trabalhadora brasileira e de outros partidos também com vínculos nessa história, como o caso dos PCs, do próprio Partido Socialista. Mas o partido surgiu já como uma crítica também ao centralismo, ao burocratismo, à verticalização, essas coisas, e lutando por uma democracia não só para fora, mas também a partir de dentro, tem uma estrutura de definições da política e de políticas no partido radicalmente democrática e isso foi se perdendo nesse caminho de 36 anos.
Aray Nabuco – O senhor tem uma análise dessa perda, Olívio, foi a questão de ir para a institucionalidade? Como o senhor analisa essa perda, essa mudança do perfil do partido? Naira Hofmeister – Porque, de qualquer maneira, todos esses programas, digamos, é um programa altamente defensável, completamente defensável ainda hoje, não é? Quer dizer, a ideia não se perdeu, a ideia se mantém.
Assim também penso. O PT como um partido, um projeto estratégico do povo brasileiro, uma das ferramentas para o povo brasileiro levar suas lutas para o País ser nação, é um partido como o PT, surgido de baixo para cima e não dos gabinetes, nem de Legislativo e nem de Executivo. Essa visão estratégica, a necessidade de trabalhar isso e conscientizar, e um partido que deve estar permanentemente também aprendendo junto com o povo e com ele se caldeando, isso não está esgotado. É por isso que luto para reconstruir o partido pelas suas bases. Ele surgiu de baixo para cima; ele pode e tem condições de ser reconstruído também de baixo para cima.
Eu penso que como partido, evidentemente, tinha que disputar eleições, mas não se transformar numa máquina eleitoreira, ou ter a preocupação, quase que exclusiva, eleitoral. Então, o partido foi assumindo cargos na institucionalidade, legislativos em todos os níveis, executivos também em todos os níveis, sem fazer a avaliação de que significava isso pra um partido que já se afirmou, desde o seu surgimento, e está nos seus estatutos, como um partido de esquerda e do socialismo democrático. Evidentemente, uma vez indo para a institucionalidade, ele vai estar dentro de uma máquina que não é do estado ideal, sí, bueno, se tivéssemos condições ideais pra lutar não precisávamos de outra coisa senão um salto de qualidade. Não, isso tem que ser construído. Então, o partido não foi avaliando criticamente a sua inserção na institucionalidade e acabou por ser absorvido por essa institucionalidade.Earelação fora da institucionalidade, na planície das lutas reais do povo brasileiro, foi ficando secundarizada. Evidentemente que nunca se cortou o vínculo, mas passou a ter menos importância do que tinha no passado. Criou-se também, paulatinamente, uma cultura muito parecida com a cultura dos partidos tradicionais, “tu tem que eleger, tu tem que alocar gente” aqui e ali, plantar pra cá, pra lá. Mas uma vez eleito pro Legislativo, pro Executivo, um militante de um partido de esquerda e do socialismo democrático não pode simplesmente ser um burocrata pra fazer uma relação formal, ocupar um espaço sem semear mudanças, sem provocar as elites, sem ser, digamos, uma boa ponta de lança na luta de classes. É evidente que, pela simples vitória de um partido do campo socialista democrático, como o PT, eleitoral, não se chega ao poder, nem nós, um partido do socialismo democrático, não queremos o poder concentrado, centralizado, nós sempre fomos também contra o partido único, então, pela pluralidade, pela diversidade construir a unidade.
Mas eu penso que na esquerda, de um modo geral, sempre teve essa discussão, nunca completa, sobre o que é mesmo um partido de esquerda, do socialismo democrático e o seu papel na disputa eleitoral e na conquista de postos na institucionalidade legislativa e executiva. O que isso pode representar mesmo pra alavancar as lutas sociais populares para as mudanças de qualidade da sociedade e do Estado brasileiro? Isto sempre foi uma discussão interrompida ou incompleta, ou superficial, e isso foi levando a uma espécie de acomodação. E hoje nós temos até uma cultura espraiada pela direção, a maioria que tem composto a direção e comandado o País, que até na base partidária, as pessoas mais simples, né, encaram como: “não, quando chegar a nossa vez é nós que temos que estar ocupando os cargos”. E a gente se pergunta: mas pra quê? De que jeito? De que forma? Nós não temos que discutir isso, sério, pra não deixar a burocracia, a impostura, a pretensão, o poder subir pra cabeça, a mosca azul picar os quadros que estão nestas situações? Então, faltou e falta uma discussão que pode e deve ser retomada.
Aray Nabuco – O senhor enxerga essa religação com as bases como um movimento no partido?
Eu não sou membro de nenhuma instância diretiva do partido. Não sou membro do diretório municipal, não sou membro do diretório estadual, não sou membro do diretório nacional… Aqui no Rio Grande do Sul tenho o título de presidente de honra do Partido dos Trabalhadores, mas o presidente politico é o companheiro Ary Vanazzi, recentemente eleito pra Prefeitura de São Leopoldo. Porque não estou organicamente ligado a nenhuma corrente interna do partido; mas sou parte no campo de esquerda do partido, eaesquerda do partido também é diversificada, plural, e isso é bom! Eu vejo com olhar bastante crítico, mas eu também me cuido, vamos usar palavra ruim, mas eu me policio para não fazer a crítica sem a autocrítica. E eu tenho visto por onde ando, e tenho andado bastante porque sou convocado pela base partidária aqui em municípios e regiões do Rio Grande, às vezes até fora do Rio Grande, então tenho conversado bastante com áreas importantes da base partidária, tenho inclusive acompanhado atos de filiação ao partido.
Veja só, nesse momento em que o partido está debaixo do mau tempo, tem filiações e em especial de jovens, mas também algumas pessoas de mais idade, mais experientes, que sabem que a luta social não é uma luta meramente eleitoreira. Então, eu vejo resistências na base partidária, vejo ganas, vejo forças que precisam ser desencadeadas, mas eu não acho que seja de cima para baixo que possa acontecer isso; e muito menos com a atual maioria que compõe a direção partidária. Mas também não é só mudar a direção partidária, é fazer uma discussão mais ampla, mais profunda, radicalmente democrática e isso não cabe num calendário eleitoral, nem sequer numa data do calendário gregoriano. Isso é um trabalho de baixo para cima, com profundidade e radicalidade e que tem que ser feito com paciência, persistência, permanência, pro partido ser um escola política onde a direção não é a professora e a base, os alunos. Um partido político que esteja sempre aprendendo com os lutadores sociais, com as lutas, e reforçando os movimentos sociais sem fazê-los correia de transmissão do partido, e sem o partido ser mera correia de transmissão dos movimentos. Tem que saber trabalhar essas distinções, saber trabalhar como que é o partido e os governos e quem ele encabeça. Não são a mesma coisa; têm papéis diferentes, isso precisa ser debatido, discutido pra gente poder fazer o trabalho importante que desperte a cidadania do povo brasileiro e em especial da classe trabalhadora para que ela se torne sujeito e não objeto da política.
Naira Hofmeister – Essa falta de conexão com sua base é muito importante no setor sindical, justamente o que originou o partido, não é, Olívio? Existe alguma possibilidade de se debater isso em conjunto com os sindicatos, porque os sindicatos também estão bastante distantes das suas direções, de seus trabalhadores. Enfim, o que está acontecendo também nesse segmento sindical?
É um dado da realidade, que a gente não pode superficializar. É a crise, sim, do pensamento humanístico no mundo inteiro e a crise das esquerdas, de uma forma global, e evidentemente uma crise nos movimentos sociais e em especial no movimento sindical. Uma crise, inclusive, de cunho democrático, muitas entidades, movimentos, sindicatos e organizações do povo têm pouca renovação nas suas direções, em suas políticas. E eu penso que um dos erros nossos, do Partido dos Trabalhadores nos governos municipais, estaduais e nos mandatos do governo federal, foi, digamos, trazer para dentro da máquina lideranças importantes dos movimentos sociais sem ter havido uma renovação maior na formação de quadros, inclusive do partido e em especial também nos movimentos e dos movimentos. Isso é uma questão seríssima e evidente que o PT surgiu de dentro dos movimentos sociais, na luta social, contra a ditadura e muito mais do que acabar com a ditadura por direitos sociais, pela construção de um País que se transformasse em Nação pela participação e protagonismo do seu povo, com a ideia de movimento desconcentrado, descentralizado, soberano, que pudesse se relacionar de forma melhor com o mundo, e em especial aqui na América Latina, na África, na Ásia, enfim.
Essas questões não podem ser encaradas isoladamente, então, não é só uma crise do PT. Mas no caso do Brasil, a crise do PT é seríssima, porque a crise geral
da esquerda mundial, a crise da esquerda, sofre muito com isso, eoPT não pode se esconder atrás de uma pseudo “Frente Brasil Popular”, que é importante que seja construída, mas o PT tem que fazer a sua autocrí-tica pra conversar com franqueza com os movimentos sociais, com a classe trabalhadora, com a base social, que sempre olhou para o PT com simpatia, e tem razões hoje de estar olhando com desconfiança, aliás, mais do que desconfiança, por conta de erros cometidos por figuras importantes do partido na sua direção em cargos importantes dentro dos nossos governos. Tem uma direção do partido que ainda não distinguiu essa gestão política errada, aliás, mais do que errada, muitas dessas ações feriram seriamente um patrimô-nio ético de um partido de esquerda, do socialismo democrático. Não ter feito essa separação do sujeito coletivo, que é o partido, de ações de indivíduos e de pessoas, por mais importante que sejam, são e foram também, pessoas que cometeram esta forma de gestão política errada, de certa forma imitando a gestão política dos partidos tradicionais, colocando o PT no mesmo saco dos partidos que sempre fizeram do Estado uma forma de fazer negócio, facilitar negócios para os amigos, para os familiares, para os financiadores de campanha. Então o PT tem que fazer a sua autocrítica sim, profunda, com radicalidade democrática, tem que fazê-la com solidariedade, mas não pode disfarçar essa autocrítica e muito menos se esconder atrás de um biombo, de uma frente tipo a Brasil Popular, que é importante, o PT tinha que ter investido muito mais na composição de frente de esquerda do País. A pergunta: quem é a esquerda no Brasil? Em todos os episódios eleitorais mais recentes, a esquerda disputava entre si quem era mais palatável para a direta, para ser candidato a prefeito, a governador, até para presidente da República. Ora, é uma perda de noção numa sociedade de extremas desigualdades, de injustiças, onde o Estado é a cidadela dos grandes interesses das oligarquias, da aristocracia, do rentismo, de um empresariado nacional articulado com as multinacionais, com o latifúndio, com a especulação imobiliária nas cidades… Essas questões foram sendo diluídas, esquecidas, por conta das composições que os governos tiveram que fazer com os setores que nada têm a ver com o projeto de formação para o País. Aí, fomos deixando pra depois a reforma política, e foi o Eduardo Cunha que acabou fazendo; não fizemos a reforma tributária, que o Lula apresentou, que eu me lembro, ainda estava no governo como ministro das Cidades, em abril de 2003, que acabava com a guerra fiscal, essa insanidade que joga um município contra o outro, um estado contra outro, e quem leva vantagem de tudo isso, renúncias fiscais enormes, favores tributários etc. são os grupos privados. Quer dizer, não fizemos a reforma tributária que criasse um imposto progressivo, um imposto sobre as grandes fortunas; não fizemos a reforma rural, a reforma agrária, e além do que a Constituição de 88 deixou para ser jurisdicionado, e muito menos tocamos na reforma urbana, tanto que até os projetos de Minha Casa Minha Vida têm que ser feitos em áreas que a especulação imobiliária destina para os projetos, porque o solo urbano, as áreas mais bem dotadas de serviços públicos já estão nas mãos da especulação imobiliária. Quer dizer, não tocamos nas questões estruturais e estruturantes do País, e tínhamos maioria nos dois governos Lula, no primeiro governo da Dilma, maioria que depois foi se estiolando no segundo governo da Dilma. Mas maioria pra quê? Não era maioria pra discutir essas coisas estruturantes e muito menos fazer essas reformas; então, nós fomos nos desgastando nessas alianças e fomos achando que isso era da política e que não tinha jeito, e não fizemos a provocação de baixo pra cima, para os movimentos sociais, independentemente de estarmos no governo, não se acomodarem, exigirem muito mais, porque é aquela coisa que eu sempre tenho dito, olha, eleição encaminha para uma parte do poder que é o governo do Estado; mas é o governo, quer dizer, as elites brasileiras, a classe dominante, ela não exerce o poder só com as funções do Estado que ela tem sob o seu comando, ela forma maioria legislativa e até no Executivo; ela tem poderes na sociedade e inclusive domina culturalmente, através dos seus canhões de mídia e através das suas associações e entidades, a forma como financia a própria expressão cultural, que vai afogando efetivamente a cultura popular, então é uma luta séria, e mais embaixo, de baixo para cima. Ter a ilusão de que de cima pra baixo nós vamos mudar esse quadro, é cair nas armadilhas que nós caímos, que levou a pôr dentro da nossa casa os adversários de projeto a fazerem o golpe do impeachment.
Naira Hofmeister – O senhor falou nos debates, frequentemente surge a pergunta: “quem é a esquerda? Quem são os partidos?”, mas eu queria perguntar: é possível ter noção do tamanho da esquerda, do ponto de vista de base? Qual é a real penetração desse ideário de esquerda, dessas ideias que fundaram o PT e ainda animam uma porção de movimentos, tem vários movimentos de resistência acontecendo, as universidades estão ocupadas, quer dizer, tem um caldo, como o senhor gosta de falar, para trabalhar.
Eu também acho que essa questão, “quem é a esquerda?”, também leva a: “o que é a esquerda? O que é ser de esquerda?”. Evidentemente isso tem reflexões e é importante que se faça ainda mais a fundo, mais espraiada e de forma mais popular, uma discussão de quem realmente é a esquerda no Brasil. Os partidos, claro, que compõem um campo de esquerda democrático, popular, e os contornos, para não deixar a frente de partidos com uma periferia esburacada, rendada e a qualquer momento que se ganha uma eleição, entra gente que não tem nada a ver com a esquerda, mas faz da política uma profissão e encontra ali uma oportunidade, enquanto conteúdos programáticos, visões de articular a luta institucional com a luta não institucional, ampliar o controle público e não apenas o controle formal burocrático, essas ideias vão se perdendo, se estilhaçando, se debulhando.
Então, um partido da esquerda e do socialismo democrático jamais pode perder o rumo, essas noções básicas. O Estado tem que estar sob o controle público efetivo e não sob o controle pessoal particular de quem quer que seja. Então, um partido do socialismo democrático, um governo de esquerda, há que estar sempre instigando um protagonismo, a participação consciente. Nós chegamos a lançar, por conta de que já nos movimentos sociais tinha essa demanda, a ideia do orçamento participativo, ver o orçamento público, isso é nas três dimensões. Não é uma peça técnica burocrática apenas. Claro que ela tem que ter tecnicidade, mas é uma peça política por excelência, porque está lidando com a renda pública, gerada por quem? Pelo trabalho! O orçamento se faz segundo os grupos de interesse que pressiona o governo pra fazer a proposta, pra depois ir pros legislativos, sem nenhuma consulta ou embate, comparação com as necessidades das populações, com as possibilidades, com as vocações locais, regionais, com a ideia de um desenvolvimento espraiado, desconcentrado, descentralizado, estimulador da participação e da autoestima popular, pro povo se ver a si mesmo e não ser imposto de cima para baixo o que querem os grupos de interesse. Eu penso que tenha aí muito o que refletir, o que discutir. Mas o PT trazia isso e é uma herança antiga da luta social, da luta do povo brasileiro, e não podia ir se perdendo por simplesmente ir se acomodando nos espaços da institucionalidade, conquistado, evidentemente, via eleição, que nós nunca podemos perder essa conquista da humanidade, que é eleger o nosso representante pelo voto direto e secreto. Nós inclusive podemos estar ameaçados de não ter eleição em 2018.
Aray Nabuco – Tá aí uma coisa que foi vitrine do partido, o orçamento participativo, as administrações aí no Sul foram um exemplo, baseado nessa participação popular.
É verdade. Agora, é bem verdade também que lá no início quando ele veio com toda a gana, brotando das lutas sociais, da vontade popular, a gente não deu toda a rédea para ele, como a gente diria em termos gauchescos, e começou a haver certos controles daqui e dali, e no fundo no fundo nós não chegamos a discutir bem a questão da receita pública. Nós discutimos bastante nas plenárias e nos conselhos participativos a despesa. Quer dizer, a necessidade de obras, de qualificação de serviços, mas e a receita? A estrutura tributária do município, do estado, do País, para a cidadania saber porque que tem renúncia fiscal. Por que o poder público deixa de arrecadar impostos de setores com alta capacidade contributiva? Por que tem favores tributários para determinados setores? Por que há essa enorme possibilidade da sonegação? Porque hoje tem no País, via renúncia fiscal, um outro orçamento público; via sonegação, outro orçamento público, eagente nunca chegou a discutir com profundidade e a radicalidade necessária, mesmo dentro das assembleias do orçamento participativo, essa questão. A gente tem que ter visão clara de que… Tinha muitas áreas, mas que… “não, nós não podemos estar sempre provocando, não podemos ser elefante em loja de louça…”. Isso é verdade, evidente, nós somos eleitos e vamos para dentro de uma máquina que não é a máquina ideal, está cheia dos interesses mais diversos e os mais antagônicos ali. Pra ti fazer valer o interesse público, o interesse social, você tem que ter muita convicção, estrutura, quadros e relações na base da sociedade. Não pode perder essas relações na base pra fazer essa luta, que é profundamente democrática, você não deixar o Estado ser a cidadela dos interesses privados, dos grupos mais poderosos, mais influentes, isso é uma necessidade democrática. A democracia no nosso País precisa se consolidar e se qualificar só mediante um controle público efetivo, não apenas do controle público institucional, dos legislativos, dos tribunais de Conta que nós sabemos como é que funcionam. E mais que isso, a cidadania ativa, permanentemente, sabendo de onde vem o recurso, “por que essa política de isenção se deu?”, “porque está dando tamanha renúncia fiscal esses setores que podem pagar?”… A cidadania, tendo conhecimento disso, evidentemente que vai influir na construção de uma outra estrutura tributária municipal, estadual, federal. Então, o orçamento participativo foi sendo domesticado, por nós mesmos, e hoje até o Banco Mundial recomenda: “Olha, quem estiver aplicando orçamento participativo tem facilidade para...” e tal. Mas vai ver qual é o orçamento participativo que está sendo aplicado. Eu mesmo tenho ido em locais que o prefeito diz: “Olha, seu Olívio, nós aqui aplicamos o orçamento participativo, eu destino tantos milhões para discutir com a comunidade como nós vamos aplicar aquele recurso”. Mas eu fico me perguntando, mas ele junto com quem destinou tal volume daquele recurso? Com que critério, com que base? Tem que discutir o total da receita, de onde que vem os recursos, quem paga imposto, quem não paga, quem paga com concessão, quem paga com vantagens fiscais, quem com renúncias enormes e como funcionam as máquinas do Estado pra fazer essa arrecadação de forma correta e tal? Não pode ser uma discussão, então, que tu discute a receita com o setor empresarial, os ricos e muito ricos, e a despesa com os pobres, pra ver o que sobra pra ser lá dividido. Então tá mal, essa coisa tem que ser retomada. Há necessidade para a democracia ser conquistada pelo povo brasileiro e ela existir não só na letra da lei e no discurso, mas na realidade da vida. É preciso que haja uma cidadania viva e o cidadão, eleitor, eleitora ou não, todos, o povo que compõe uma nação saber que políticas efetivamente estão se dando e como que vem os recursos, de onde, porque tem receitas nos municípios que não vêm somente dos municípios, extraorçamentárias, o povo também tem que saber. É a vaidade do governante que define isso? É a pressão do poder econômico? Dos grupos sociais que dizem que esse recurso vem aqui, tem que ir pra lá? Então há um nó que tem que ser desatado e que o orçamento participativo é a possibilidade de desatá-lo. Nós fomos, de certa forma, domesticando essa ferramenta, temos que retomar discussões e isso é profundamente democrático.
Eu quero repetir: a democracia brasileira está ameaçada. Não só por esse golpe do impeachment, mas pelas formas como as elites foram se estruturando dentro do Estado, privatizando por dentro e agora privatizando de fora para dentro. Então, a democracia está sendo garroteada. É preciso libertá-la. E isso só pode ser uma tarefa coletiva, participativa, não só de um partido, mas o PT jamais poderia ter perdido o rumo e a sua importância, que no meu entendimento pode ser retomada, mas compartilhada com todas as demais forças do tronco popular e democrático, evidentemente que sim.
Naira Hofmeister – O senhor fala sobre o povo, mas hoje tem uma parcela da população que está sem vergonha nenhuma, pedindo atitudes extremas, de direita, por exemplo, intervenção militar. De que jeito lidar com isso, com o que está acontecendo na sociedade?
Eu sofro com isto. Quer dizer, é evidente que existe na sociedade brasileira, na sociedade mundial, um ovo da serpente, aqui ou ali ele rompe a casca. Mas eu acho e prefiro a direita explícita, que se assume publicamente, do que a direita enrustida, que trama os golpes, tece nas sombras o golpe sobre a democracia, essa é a mais perigosa. Evidentemente quando surgem esses movimentos abertos de fascismo, de chamamento a intervenções militares, de preconceitos políticos, de criminalização dos movimentos, por baixo deles, na minha ideia, tem cabeças pensantes quer são, digamos, o corpo do iceberg. Então, é por isso que a gente tem que estar muito atento e não pensar que esses movimentos subterrâneos e a sua ponta que aparece aí na expressão fascista vão poder ser desconstituídos, destituídos, com outro golpe pela esquerda. Não, é um processo de construção de baixo para cima de uma cidadania ativa, participativa, onde a gente tem, claro, muitos exemplos de sacrifícios de companheiros, companheiros anônimos, que têm levado essa luta, perdido a vida, inclusive, nessa visão da construção da política como construção do bem comum, com protagonismo das pessoas. Precisamos tecer mais, aprender mais, intercambiar experiências. Temos que ter também uma rede de comunicação capaz de possibilitar que os movimentos sociais e o povo em si, se veja a si mesmo, e não sofra impostura das culturas massificadas ou encaixotadas que vêm através dos grandes instrumentos de mídia monopolizada. Então, há necessidade de construir redes sociais, evidentemente aí também tem o protagonismo via redes sociais digitais, acho que também está longe de ser um passo que é o ideal. E acho que também cabe um material impresso, não temos um jornal de grande circulação com capacidade de sobrevivência econômica, do ponto de vista de uma esquerda socialista democrática. Foi deixando de existir, e hoje é ainda mais difícil. Eu estou falando para uma revista que é a Caros Amigos, que é um esforço enorme, que é de um pensamento libertário, não ligado a este ou aquele partido, mas defendendo o ideário que é profundamente democrático e precisa de ampla difusão. Para possibilitar uma discussão onde as pessoas se apropriem de um pensamento e possam também desenvolver o seu pensamento crítico para que a gente construa uma sociedade de igualdade, fraternidade, justiça e, evidentemente, radicalmente democrática.

Aray Nabuco – Olívio, você colocou no começo da entrevista que está fora das instâncias de decisão do partido, e se coloca como um independente, fora das tendências dentro do partido. Qual o seu futuro no PT, você chegou a pensar em ter uma atitude mais radical, deixar o partido ou algo assim?
Não. Deixar o PT nem me passa pela cabeça. Mas não também conviver com as coisas que estão aí, com essa maioria que vem dirigindo o partido, e que do meu ponto de vista, levando para esse despenhadeiro que estamos indo, do qual podemos e devemos sair.
Bueno, eu digo que não pertenço organicamente a nenhuma das tendências internas do PT e acho que é da natureza do PT ter tendências internas, pra ele ser democrático; ocorre que no processo também as tendências internas foram se tornando uma espécie de extensão de mandatos, mandatos de parlamentares ou de gentes do Executivo destinadas para garantir um espaço para os nossos parlamentares, sejam vereadores, deputados estaduais e federais, senadores, gente ligada à máquina pública nas três instâncias. Então, elas foram perdendo muito da sua importância e precisam resgatar essa importância como espaço para debates de temas mais sérios, políticos; um partido de esquerda, do socialismo democrático como o PT, tem vários temas que tem que haver debate, não é um pensamento único que predomina. Tem que haver espaços internos do partido pra esses debates, mas não as correntes serem comitês eleitorais, como foram se transformando. Por isso eu não sou organicamente ligado a nenhuma das tendências, mas evidentemente que tenho relações importantes, sérias, solidárias com áreas da esquerda do partido, principalmente, que estão em diferentes correntes. Então há um campo de esquerda do partido que eu penso e, digamos, torço para que seja maioria no próximo encontro nacional que vai acontecer em abril. Nós até achávamos que tinha que ter antes uma grande principal discussão que viesse de baixo pra cima nas microrregiões, nos municípios, nos estados, para culminar no encontro nacional com delegados que tivessem feito essa discussão plena, completa, radical, uma autocrítica para embicar o partido no rumo das coisas sérias e possibilitar que possa navegar contra a máquina neoliberal que está se espraiando pelo mundo afora. Então eu não acho que é virtude minha não estar vinculado organicamente a esta ou aquela corrente, pode ser até um limite. Mas por conta disso eu não disputo eleições pra delegado do partido dentro dessa ou daquela corrente. Aliás, eu acho que precisa ter um novo estatuto para as correntes no partido, que possam requalificá-las e permitir que milhares de filiados atuem no partido sem necessariamente estarem vinculados a esta ou aquela corrente.
Naira Hofmeister – Mas parece que essa sugestão não tem ganho muito espaço dentro da direção nacional. Como está esse embate de forças internas dentro do partido? Bueno, eu não sou autoridade para falar sobre isso…
Naira Hofmeister – O senhor é parte (risos). Eu sou parte, evidentemente com responsabilidades enormes, e acho que, é claro, não é só mudar a direção, é também pensar a política, os desafios de hoje, com base nas experiências de ontem ou de anteontem, nos seus limites, nas suas grandezas, nos seus acertos, nos seus erros… Fazer uma retomada das questões, digamos, o estaqueamento básico de um partido de esquerda e do socialismo democrático e não uma coisa saudosista. Têm desafios novos, por exemplo, a questão da tecnologia, a apropriação pública da ciência, da tecnologia, e em benefício do ser humano. O meio ambiente no mundo, a natureza sendo agredida e destruída pelo capitalismo na sua fase neoliberal. A juventude, as perspectivas de vida, de esperança, de sonho, a cultura como algo que não é uma coisa empacotada. Isso tudo são desafios, o partido precisa tomar consciência efetiva, pensar sobre isso, produzir sobre isso, estimular suas bases a produzir, pensar sobre isso, nas suas instâncias democráticas e perfilando a política e as políticas para sua intervenção nas lutas sociais e na consolidação e no aperfeiçoamento da democracia.
Naira Hofmeister – E a base está com força pra fazer essa... Tem muita inquietação na base, muita inquietação. Evidente que o partido tem raízes importantes, mas também os movimentos sociais estão em uma certa crise séria. E eu lembro que já na constituinte, eu fui constituinte, lá nós lutamos, por exemplo, pelo fim do imposto sindical, a possibilidade de os sindicatos não serem mais um apêndice do Estado, via o imposto sindical, e decidir em assembleias com os trabalhadores uma contribuição regular para o sindicato e ter controle da base sindical sobre esses recursos, uma espécie de orçamento participativo nas entidades. E fomos para esse debate, mas já dentro do PT havia um “não é bem assim, pera lá..., as relações nossas com os PCs, e em especial com o antigo e querido Partidão, e que sempre defendeu…”, e no fim nós fomos minoria; o campo de esquerda se aliou inclusive com a Confederação Nacional da Indústria (risos), que também defendeu a permanência do imposto sindical, ela também tem suas entidades sindicais. Então, tu veja, foi mantido o imposto sindical com essa aliança já dentro da constituinte. Então veja que não é uma coisa qualquer, tem questões sérias, culturais, na base da sociedade, que precisam de uma discussão maior.
Tu falou numa fotografia que temos sim, que eu tô ao lado de duas figuras que eu tenho o maior respeito, o povo brasileiro respeita, que é o pai do Chico Buarque, o Sérgio Buarque de Holanda, em torno de uma mesa, ao lado, claro, do Lula e outros, e também uma que estou ao lado daquele grande companheiro, que era grande crítico de arte, eu me lembro do livro dele A Opção Imperialista, e outros, mas ele era um grande crítico de arte não me lembro… (Mário Pedrosa, 1900--1981). A Lélia Abramo, o próprio Perseu Abramo, grandes figuras. O nosso companheiro lá do Maranhão, que perdeu uma perna na repressão da ditadura, grandes figuras da base e do pensamento democrático do País. E estes levantavam questões importantes de fundo para ser discutidas por um partido que se propunha a ser de esquerda, e do socialismo democrático. Depois nós vamos, Florestan Fernandes, por exemplo, Paulo Freire, o professor Antônio, professor de literatura, já está com noventa e poucos anos...
Naira Hofmeister – O Antônio Cândido... O professor Antônio Cândido… E nós nunca sentamos com essas pessoas para ouvi-las mais? (risos) Os quadros de direção convidarem e oportunizarem que essas pessoas viessem de várias regiões, e sentar com os movimentos, eopovo brasileiro saber que tinham cabeças pensantes com coração, com consciência, ligadas às lutas sociais e aos movimentos, com os quais a gente tem sempre o que aprender. Então, é pena; essas coisas não se perdem assim de todo, mas o esforço para recuperá-las também não é fácil, não é pequeno. Mas é por isso que essa luta vale a pena.
Naira Hofmeister – Como casar essa necessidade de reflexão e de diálogo com essa avalanche de problemas e dificuldades? Em todas as esferas do governo federal e aqui no estado do Rio Grande do Sul também há uma imposição de uma forma de governo bem concreta, com corte, com ajuste e sem diálogo nenhum. Como juntar esse momento, essa angústia aí, porque tem gente que quer influenciar nos rumos políticos, mas por outro lado, os políticos estão lá encastelados e não têm nenhum canal de discussão.
Olha, eu encaro isso como positivo, que tenha movimentos não dependendo de partidos ou de figuras messiânicas, é positivo, e que isso esteja pipocando em diferentes áreas, circunstâncias, locais. Mas antes que eu esqueça, abra um parênteses, a grande figura do intelectual da fundação do PT, crítico de arte, era o Mário Pedrosa, grande figura.
Bueno, mas estas questões que tu levanta da conjuntura atual, o golpe do impeachment, que levou o governo a ser assumido pelo ex-vice-presidente, que ilegitimamente está aí no comando da máquina pública pra executar um projeto que foi derrotado nas eleições de novembro de 2014, que não tem a legitimidade dos votos, nem o atual presidente e nem o projeto que ele está encarregado de implementar com a maioria que tem lá no Congresso. E aqui no Estado também um governo que tem essa mesma visão. Aqui, o PMDB, que é a maioria dentro deste governo, já não votou nem no último mandato do Lula e muito menos na Dilma. Então, eles são um campo político com as suas diferentes siglas, mas com mesma visão do Estado mínimo para a maioria da população, e máximo para os interesses privados e até particulares. Isso é uma questão que não se resolve só com palavras de ordem, mas sem palavras de ordem tu não convoca os movimentos, evidente. 
Eu acho que, com a crise na esquerda e, em especial, no PT, sem o PT dar clareza como sair disto, sem fazer a sua autocrítica profunda, real, também contribui para uma certa, digamos, falta de foco ou eclosão da luta econômica, aqui, ali, é preciso ter um comando, que não pode ser de cima pra baixo, e nem exclusivamente partidário, pra esses movimentos todos fazerem com que a situação, tanto a nível federal, quanto aqui, a nível estadual, seja sacudida, questionada, pressionada. O que não pode haver é aliviar o lombo desses que entraram por processo seja do poder econômico, seja do golpe mesmo, urdido por dentro do próprio governo do qual participavam na esfera federal. Então aí eu vejo como positivo que tenha movimentos mais variados, mas que não dependam mesmo de uma figura, de um deputado, de um senador, de um governante, tem que fazer com que a política não seja uma profissão de uns, não seja um discurso de ocasião. Acho que aí está sendo questionada a própria política, para a política voltar ou finalmente vir a ser a construção do bem comum com o protagonismo das pessoas. Quer dizer, fazer política não é necessariamente ter um mandato, ou ter um cargo, é da natureza do ser humano ser político. Se o ser humano não se realiza nessa dimensão política, ele é um ser humano incompleto. Então cabe aos partidos do socialismo democrático instigar a participação plena da cidadania, e não ir atrás dos movimentos para cooptar as lideranças dos movimentos pra vir pra dentro da máquina partidária ou pra máquina burocrática. Em algumas questões de governo nosso, os movimentos sempre eram tidos, “ah, mas agora que nós estamos no governo, os movimentos podiam nos relevar, não vai dar pra fazer isso, não vai dar pra fazer aquilo...” Não, deixa os movimentos instigar, pressionar! Evidentemente que o nosso governo de esquerda vai ser sempre também questionado pela direita. Pela direita, pra ficar empacado, pra não ir adiante, pra não levar o projeto adiante. E os movimentos sociais têm que saber fazer essa distinção, da pressão pela direita que recebe constantemente os governos do campo popular democrático, e da necessidade desses governos também terem no seu calcanhar os movimentos sociais com a sua força e não com a sua acomodação.
Nina Fideles – O senhor evitava falar em golpe no início do impeachment. Como o senhor vê hoje? Até hoje mantenho esse pensamento de que o PT, a sua direção, embicou mal o partido no enfrentamento dessa trama que estava sendo urdida dentro do governo no Executivo e no Legislativo. Nós fomos indo aos tropeços, uma hora quase chegando a apoiar o Eduardo Cunha, deixando de apoiar, por exemplo, uma proposta de reforma política que o deputado Henrique Fontana (do PT do Rio Grande do Sul) vinha defendendo, e propiciando, portanto, que o Eduardo Cunha fizesse a reforma política que fez, um atraso. Nós fomos deixando envolver, abrindo a guarda, e eles foram tecendo por dentro o que é previsto na Constituição, o tal impeachment. O impeachment, por si só, não é golpe, está lá dentro da Constituição, mas é como construir o crime que baseie um processo de impeachment. Nós não fomos desvendando isso corretamente, a não ser lá nos finalmente. Evidentemente que se tramou e se deu o golpe via impeachment, e é um golpe.
Eu não sou advogado e nem pretendo dar aqui uma de jurista, mas constitucionalmente, evidentemente que não teve nenhum crime de lesa-pátria, traição à pátria, ao povo brasileiro, ao Estado brasileiro por parte da Dilma.
Naira Hofmeister – E o risco de autoritarismo a gente corre? É possível não ter eleições em 2018, pelo menos eleição direta. Que irão ter uma eleição indireta. O atual presidente decorrente do golpe aí está no meio de uma investigação sobre dinheiro recebido da Odebrecht. Ele está sendo acusado, inclusive, de obstruir o trabalho do Judiciário. Então, sem demora se cria uma situação em que ele também é descartável. E há possibilidade de ter uma eleição indireta, via esse Congresso que está aí, imagina. Tem que haver, evidentemente, eleições diretas. O mandato da Dilma termina em 2018. E acho que em tudo isso, nesses tropeços entre poderes Judiciário, Legislativo e Executivo, se demonstra que nenhum desses três poderes está atuando com a qualidade que deveria atuar, pra qualificar a democracia.
Então, nós precisamos convocar uma Constituinte, esta sim livre, soberana, exclusiva para as reformas. Agora, quem é que convoca? É esse Congresso, eu não acredito nele; o Executivo, não acredito nele. Tem que haver pressão de baixo para cima, um amplo movimento social popular, que não pode ser pequeno e que não surge de uma hora para outra, e no entanto tem que ser estimulado, fermentado, enfim, eu acho, para consolidar e qualificar a democracia brasileira e ter perspectivas de um futuro melhor que não possa ser interrompido como está sendo a jovem democracia pós-golpe. É preciso ter esta constituinte livre, soberana, e exclusiva para as reformas, não um Congresso Constituinte como foi o de 87/88.
COLABORARAM NINA FIDELES E LILIAN PRIMI
Conferência dos Geógrafos Latino Americanistas

Data: 05 a 11 de janeiro de 2014 (apresentações nos dias 07 e 08)
Lugar: Cidade do Panamá, Panamá
Envio de trabalhos: até 31 de outubro de 2013

Maiores informações na página na internet:
http://clagpanama2014.tamu.edu/call-for-papers
http://clagpanama2014.tamu.edu/