domingo, 22 de maio de 2016

Imagens Aéreas De Cambará Do Sul




Fixos e fluxos em função da globalização

 Do Blog Geografia e ensino de geografia

Porto de Amesterdão. Uma "Cidade Global Alfa" na classificação do GaWC 2008.




Do Blog Linguagem geográfica

Aeroporto Internacional de Dubai


Direito à Moradia no Brasil

SÉRIE ESPECIAL – O DIREITO À CIDADE EM TEMPOS DE CRISE
LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL 

Direito à Moradia no Brasil: retrocessos em um contexto de crise

Não apenas a crise econômica repercutiu na política de habitação. A necessidade de aprovar medidas impopulares no Congresso e os limites colocados para a ação do governo no âmbito do “presidencialismo de coalizão” levaram à reestruturação institucional do setor de habitação e política urbana








Com o avanço da crise política e dos conflitos emergentes em torno do impeachment da presidente Dilma Rousseff, parece ficar mais claro o confronto entre dois projetos políticos e econômicos. Se, durante um certo tempo, uma conjuntura externa favorável tornou possível conciliar uma política social mais agressiva com crescimento econômico e redistribuição de renda e com o beneficiamento de setores das elites – particularmente o agronegócio, os bancos e o setor da construção – as mudanças no panorama internacional agora parecem ter tornado urgente, para as elites econômicas, retomar o comando da economia, libertando-se das “amarras” do distributivismo e da política social. Não é à toa que os economistas liberais reafirmam que, superada a crise política, torna-se necessário aprofundar o “ajuste”, o que significa mais uma rodada de perda de direitos sociais, em particular no que diz respeito à previdência, à legislação trabalhista, aos ganhos reais do salário mínimo e à redução dos gastos sociais (inclusive em saúde e educação).
De que forma o conflito que se anuncia poderá atingir o direito à moradia? Para refletir sobre esse tema é necessário fazer um balanço dos resultados da política recente, identificando seus avanços, mas também compreendendo as suas limitações. Em primeiro lugar, parece interessante compreender em que as mudanças empreendidas nas políticas urbanas e habitacionais a partir do primeiro governo Lula (2003-2006) se diferenciaram em relação aos governos anteriores. Esse contraponto pode ser ainda mais relevante se pensarmos que, em alguma medida, é possível que uma mudança conservadora nos leve de volta ao panorama do final da década de 1990. Em segundo lugar, é também importante entender as inflexões ocorridas ao longo dos quatro governos sucessivos sob o comando do Partido dos Trabalhadores, buscando identificar em que medida as coalizões de interesse que orientaram a política habitacional poderão, ou não, se configurar como resistência ao ímpeto conservador que ameaça um retrocesso no campo do direito à moradia.
A política urbana no primeiro governo FHC (1995-1998), sob a responsabilidade da Secretaria de Política Urbana do Ministério do Planejamento e Orçamento baseou-se: (1) no saneamento e na reestruturação do FGTS que deveria ser utilizado para o financiamento da política urbana dentro de princípios de contenção do risco, preservação das reservas e rentabilidade dos ativos, sob o controle mais estrito do Conselho Curador; (2) na municipalização da política habitacional, utilizando recursos do FGTS (Programa Pró-Moradia) ou do Orçamento Geral da União (Programa Habitar-Brasil e, posteriormente, em 2001, com a criação do Programa de Subsídio Habitacional - PSH); (3) na criação dos Programas Carta de Crédito FGTS (voltado para setores de menor renda) e Carta de Crédito SBPE (voltado para os setores de maior renda), visando, basicamente a concessão direta de crédito ao mutuário final (pessoa física).
Essas diretrizes são revistas a partir do impacto da crise econômica que atingiu o Brasil em 1998/1999, em seguimento às crises asiáticas (1997) e russa (1998), que tornaram ainda mais agressivo o “ajuste neoliberal”, que vinha sendo adotado já desde o primeiro quadriênio do governo FHC. Com a crise russa, a partir de 1998, a solução gradualista que vinha sendo adotada passa a ser considerada ineficaz e o governo anuncia um acordo com o FMI envolvendo um forte ajuste fiscal, um aumento expressivo da taxa de juros, um pacote de ajuda externa e um compromisso com a manutenção da taxa de câmbio. Esse último ponto veio a ser revisto com o aprofundamento da crise em 1999 e com a adoção do câmbio flutuante, o que teve um impacto ainda mais significativo sobre a dívida pública. (AVERBUG e GIAMBIAGI, 2000:18) Os problemas do câmbio e da queda do Real vieram a impactar ainda mais fortemente as restrições vigentes sobre o gasto público, com compromisso de construção de um superávit primário, saindo de 0 (em 1998) para 3,1% em 1999 e com o compromisso de atingir 3,35% em 2001.
A crise econômica irá repercutir na política habitacional do governo em dois níveis distintos: em primeiro lugar, a elevação dos juros tem um impacto forte na retração geral do crédito, que já vinha apresentando sinais de queda, após os primeiros impactos positivos gerados pela estabilização da economia. Os juros altos elevam significativamente o custo dos empréstimos habitacionais, o que acaba reduzindo a importância do Programa Carta de Crédito. Em segundo lugar, as restrições ao gasto e ao endividamento público vão implicar em um estancamento do financiamento ao setor público, praticamente paralisando o Programa Pró-Moradia e reduzindo expressivamente os (já escassos) recursos do OGU alocados em habitação. Como alternativas, que terão impacto ao longo da década de 2000, o governo propõe ainda o Programa de Arrendamento Residencial (PAR),  destinado aos segmentos de renda entre 3 e 6 salários mínimos, e o Programa de Subsídio habitacional (PSH), voltado aos municípios de pequeno porte. Ambos os programas não chegam a ter um impacto importante no combate ao déficit habitacional.
Não apenas a crise econômica repercutiu na política de habitação. A necessidade de aprovar medidas impopulares no Congresso e os limites colocados para a ação do governo no âmbito do “presidencialismo de coalizão” levaram à reestruturação institucional do setor de habitação e política urbana. A SEPURB se transformou em Secretaria Especial de Desenvolvimento Urbano, ligada diretamente à Presidência da República e não mais subordinada ao Ministério do Planejamento. Essa medida tinha como principal finalidade atender à necessidade de criação de espaços de negociação com o Congresso, em torno das emendas parlamentares[1], que, em sua maior parte, referem-se a investimentos em habitação, saneamento e transportes, portanto áreas ligadas à política urbana. Embora, em termos formais, a Secretaria passasse a ter maior status político, em termos organizacionais o que se verificou foi um progressivo esvaziamento do corpo técnico especializado.
Com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para Presidência da República, em 2002, abrem-se novas expectativas para a institucionalização da política habitacional, segundo concepções que vinham sendo debatidas por técnicos, acadêmicos e militantes dos movimentos sociais no âmbito do Fórum Nacional da Reforma Urbana[2]. A proposta de Lula para a habitação havia se configurado no Projeto Moradia, que propunha, entre outras medidas[3]: (1) a criação do Sistema Nacional de Habitação, formado pelos três entes da Federação (União, Estados e Municípios), que atuariam de forma estruturada sob a coordenação de um novo ministério; (2) a gestão democrática da política habitacional e urbana, a partir da criação dos conselhos nacional, estaduais e municipais de habitação que deveriam definir as diretrizes e realizar a alocação de recursos da política habitacional nos 3 níveis de governo; (3) a aprovação do projeto de lei de iniciativa popular de instituição do Fundo Nacional de Habitação, bandeira do movimento de moradia que tramitava desde 1991 no Congresso Nacional; (4) a retomada do financiamento habitacional para as camadas médias (SBPE), visando concentrar ao máximo os recursos do FGTS no financiamento para a baixa renda; (5) a articulação da política habitacional com a política de controle e recuperação da valorização fundiária e imobiliária.
Com a criação do Ministério das Cidades, ainda sob a gestão de Olívio Dutra, essas propostas começam a ser implementadas, todavia ainda em um contexto de carência de recursos para investimento, já que nos primeiros anos, com a economia soba a gestão do ministro Palocci, o governo Lula desenvolveu um programa de restrição de gastos e compromisso com o superávit primário. Em 2005, com grande mobilização do movimento de moradia, pressionando o Presidente da República, foi aprovado o projeto de lei de criação do fundo de moradia, denominado então de Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (FNHIS). A lei que instituiu o FNHIS também estabeleceu os elementos institucionais básicos para a criação do Sistema Nacional de Habitação, baseado em uma distribuição de competências e atribuições entre os 3 níveis de governo, em que se estabelecia um papel fundamental para os municípios na implementação da política de habitação. O Fundo foi instalado em 2006, contando com um compromisso do Presidente, junto aos movimentos de moradia, em alocar recursos ao fundo na magnitude de R$ 1 bilhão por ano. As grandes mudanças introduzidas com a criação do Fundo disseram respeito à possibilidade de que a política habitacional passasse a contar com subsídios diretos, viabilizando assim o atendimento à habitação de baixa renda e também que a aplicação dos recursos fosse feita a partir de processos de participação e controle social, realizados através do Conselho Gestor do FNHIS que contava com a participação de diversos setores da sociedade.
A partir de 2006, começa a ocorrer uma progressiva liberalização dos gastos públicos e em 2007 é lançado o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), com um ambicioso programa de investimentos em infraestrutura. Nesse momento, o Banco Central dá início a uma redução da taxa básica de juros (ainda extremamente cautelosa mas relativamente permanente), o que vai viabilizar um melhor desempenho da economia e um maior crescimento do PIB e que terá também impactos sobre o crédito imobiliário. Outro elemento importante no cenário macroeconômico, que vale a pena ser destacado, diz respeito à progressiva redução da pobreza e da desigualdade resultado, em parte dos programas de transferência de renda, em parte da elevação real do valor do salário mínimo. Todos esses elementos são importantes para caracterizar um quadro político mais favorável ao desenvolvimento da política habitacional e à ampliação do financiamento, mesmo considerando-se a substituição do Ministro das Cidades, ocorrida em julho de 2005, em um processo que visava ampliar a base de sustentação política do governo no Congresso, e que dá início a um movimento que poderia vir a colocar o Ministério das Cidades mais a serviço da política de clientela, favorecendo os aliados políticos do governo e reduzindo a sua capacidade de desenvolver uma política urbana com autonomia e dentro de um enfoque mais universalista.
Com o lançamento do PAC, incluindo em seu âmbito um ambicioso programa de urbanização de favelas em nível nacional, e com a reorganização institucional ensejada pela criação do FNHIOS e do SNHIS, alinhava-se os termos de uma coalizão de interesses que viria a ser o suporte social da política habitacional lulista, envolvendo: (1) o setor da construção, que vinha ao alongo da década de 1990 e 2000 buscando ampliar os investimentos públicos e a liberalização dos financiamentos habitacionais; (2) os movimentos sociais de moradia, que vinham sendo atendidos em suas demandas de produção autogestionária pelo Programa Crédito Solidário e que conquistaram um espaço maior no FNHIS com a aprovação da Ação de Produção Social do Habitat; (3) os governos locais, que se beneficiavam de repasses de recursos de financiamento (FGTS) e a fundo perdido (FNHIS) para o desenvolvimento de programas habitacionais próprios. O momento culminante dessa coalizão foi o lançamento da campanha pela PEC da Moradia – uma proposta de emenda constitucional que vinculava gastos da União, Estados e Municípios em habitação. O setor da construção, no entanto, buscava ampliar o espaço que lhe era reservado nesse acordo e, para isso, aproveita-se da crise econômica gerada pela debaclenorte-americana para encaminhar, diretamente à Casa Civil da Presidência da República um projeto de política habitacional alternativo, com um espaço significativamente maior para o setor.
Como forma de resposta à crise, o governo brasileiro buscou mitigar os seus efeitos internos através da adoção de políticas keynesianas que incluíram a manutenção do crédito, o atendimento aos setores mais atingidos pela recessão e a sustentação dos investimentos públicos, particularmente na área de infraestrutura, que já vinha sendo objeto do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). No âmbito destas medidas, teve destaque o “pacote” de investimentos lançado para a área de habitação.
O Programa Minha Casa Minha Vida – PMCMV foi anunciado em março de 2009 com o objetivo de criar condições de ampliação do mercado habitacional para atendimento das famílias com renda de até 10 salários mínimos. Estabelecendo um patamar de subsídio direto, proporcional à renda das famílias, o Programa buscava claramente impactar a economia através dos efeitos multiplicadores gerados pela indústria da construção. Além dos subsídios, buscou-se também aumentar o volume de crédito para aquisição e produção de moradias, ao mesmo tempo reduzindo os juros, com a criação do Fundo Garantidor da Habitação que aportava recursos para pagamento das prestações em caso de inadimplência por desemprego e outras eventualidades. Desta forma, intentava-se manter o desenvolvimento do setor imobiliário e reaquecer as atividades do ramo da construção civil, que experimentava uma fase de intenso crescimento desde 2006, mas que vinha sofrendo impactos da crise econômica.
Considerando o desenho adotado para o programa, fortemente ancorado na participação do setor privado, o PMCMV entrou em choque com os princípios do SNHIS, pautados no papel estratégico do setor público e ignorando, em larga medida, as premissas e os debates acumulados em torno do Plano Nacional de Habitação de Interesse Social – PlanHab, que vinha sendo amplamente discutido desde 2007. Um dos impactos mais imediatos foi o esvaziamento do FNHIS e a progressiva priorização do MCMV em relação aos outros programas então em curso no âmbito da política habitacional.
Segundo as avaliações do próprio governo, o programa teria alcançado os objetivos econômicos a que se propunha, e teve também uma boa repercussão entre diversos públicos: pesquisas de opinião desenvolvidas pelo governo mostraram que o MCMV atingiu um nível de conhecimento e avaliação positiva semelhante ao Programa Bolsa Família;  o programa atendeu demandas históricas do setor da construção civil (edificações) ampliando a coalizão empresarial de suporte ao governo; e o programa contemplou, na sua modalidade Entidades, os movimentos sociais de moradia (Cardoso, 2015). Frente a esse aparente sucesso, o governo federal decidiu por uma segunda edição do Programa, em 2011, já em contexto pós-crise[4] e com a economia em recuperação. Embora as contratações e a execução das obras tenham seguido um ritmo não tão rápido quanto a versão anterior, e os meios de comunicação começassem a veicular algumas críticas aos novos conjuntos, o Programa permaneceu com centralidade na agenda governamental, sendo proposto, na campanha eleitoral de 2014, a edição de uma terceira fase: o MCMV3.
De que forma se pode avaliar então a ação governamental dos últimos anos em relação ao direito à moradia?
Por um lado, a política habitacional ganhou centralidade na agenda governamental em níveis não vistos desde a época do BNH e com a diferença de ampliar de forma significativa o volume de subsídios seja a partir do FGTS, seja a partir de recursos do Tesouro alocados no FAR, o que permitiu que fossem efetivamente beneficiados setores de baixíssima renda que até então estavam excluídos da ação governamental. Foram também significativos os recursos alocados no PAC Favelas, beneficiando, através da urbanização, uma melhoria significativa das condições de vida da população residente em assentamentos precários.  Por outro lado, com a edição do MCMV e com a consequente esvaziamento do SNHIS, cabe refletir sobre a sustentabilidade desse modelo de política, assim como pelos seus impactos sobre a estruturação das cidades brasileiras.
O MCMV se estrutura sobre um modelo de mercantilização do bem que se propõe a ofertar, a moradia[5], cuja oferta se baseia então na transferência (ou aquisição) da propriedade do bem. Um primeiro impacto sobre a sustentabilidade do programa diz respeito ao fato de que, uma vez transferido, o bem tem um valor de mercado, o que permitiria ao beneficiário capitalizar o valor monetariamente, transferindo-o para outra pessoa. Isso pode significar – e ocorre frequentemente – que essa transferência implique em um desvio em relação aos objetivos sociais do programa já que acabariam sendo beneficiadas pessoas de faixas de renda mais elevadas, que se beneficiariam dos subsídios promovidos.
Por conta desse problema, o programa estabelece um conjunto de limitações visando evitar transferências prematuras, mas há sempre o risco de transações realizadas informalmente. Um outro problema, mais sério, diz respeito ao fato de que uma política habitacional, dotada de amplos recursos de subsídios e financiamentos direcionados, tem como como consequência imediata um aquecimento do mercado e uma tendência à elevação dos preços da terra, cuja oferta tem pouca elasticidade em relação à demanda[6].
A elevação dos preços da terra, aliada ainda ao aumento da demanda por insumos para a produção gera um crescimento dos custos de produção significativamente superiores à valorização média de outros bens e à inflação. Para enfrentar esse problema, a proposta original de política habitacional presente no Projeto Moradia colocava em plano relevante a adoção de medidas de controle da valorização e da especulação com a terra.  Isso todavia não aconteceu[7] o que levou a que, a cada edição do programa, se fizessem reajustes significativos dos valores  de produção, implicando o crescimento dos gastos públicos com subsídios superiores ao volume de produção. Esse foi um dos fatores que pode ter levado ao sucessivo adiamento do lançamento da terceira edição do programa, já que o governo, em 2015, havia adotado medidas importantes de contenção do gasto e ampliação dos juros.
Além desses problemas, os trabalhos de avaliação desenvolvidos no âmbito da rede Cidade e Moradia[8] mostram que os empreendimentos, particularmente na faixa 1, apresenta graves situações de inserção urbana. A busca por terrenos mais baratos, visando viabilizar a produção e garantir as margens de lucro previstas, levaram as empresas a elaborar projetos em áreas periféricas, muitas vezes completamente fora do perímetro urbano, em condições de infraestrutura e acessibilidade aos transportes e serviços precária. A longo prazo, esse fato leva a que os governos locais sejam premidos a investir em infraestrutura para viabilizar esses empreendimentos, ou poderemos experimentar situações de progressiva decadência física e social dos novos conjuntos[9].
A experiência internacional, assim como o caso chileno em particular, tem mostrado de forma bastante expressiva, que a criação de conjuntos habitacionais voltados exclusivamente para famílias de baixíssima renda, e isolados do ambiente urbano mais central, gera problemas de segregação e isolamento social, com consequências previsíveis de aprofundamento das situações de vulnerabilidade e precariedade social dessas famílias. Nesse contexto, e favorecidos ainda pelo isolamento dos novos conjuntos, a dominação desses espaços por gangs de traficantes ou pela milícia é uma consequência inevitável, e que já vem sendo amplamente observada, pelo menos na maioria das grandes cidades beneficiadas pelo programa.
Ao interromper a ação de municipalização da política habitacional, que vinha sendo desenvolvida desde a extinção do BNH, o MCMV também gera novos problemas de sustentabilidade a longo prazo. Se, por um lado, sem dúvida, os municípios brasileiros apresentam enormes dificuldade, financeiras e administrativas, para gerenciar os programas sociais e, particularmente a política habitacional, por outro lado o que vinha sendo construído progressivamente pelo SNHIS era um modelo que sinalizava às administrações locais a necessidade de investir em capacidade institucional e em abrir espaços participativos na gestão local. Isso poderia significar, a médio e longo prazo, na criação efetiva de um sistema que fosse mais eficaz e eficiente no atendimento às demandas locais e que pudesse de forma mais efetiva criar modelos de intervenção que pudessem evitar ou reduzir o impacto dos problemas acima apontados. A interrupção brusca do funcionamento do SNHIS sinalizou aos municípios que não seria absolutamente necessário investir em capacidade institucional, já que a única coisa que lhes era solicitada no novo programa era cadastrar a população e comparecer às inaugurações. Com isso perdeu-se a oportunidade de consolidar práticas mais universalistas e eficientes de ação local que permitissem a construção de uma política habitacional mais sustentável.
A centralidade do programa Minha Casa Minha Vida na política do governo acabou tendo outras consequências. Os programas de urbanização de favelas, que vinham sendo a principal ação de política habitacional desenvolvidas pelos governos locais, e que haviam sido fortalecidos pelo PAC Favelas, foram progressivamente sendo esvaziados, já que o novo programa aparecia como muito mais eficiente e ágil nas contratações e entregas de produtos[10]. Paralelamente, verificou-se sucessivas campanhas nos meios de comunicação que colocavam a necessidade das retomadas das remoções, num processo claro de deslegitimação do direito à moradia enquanto direito às populações residentes em assentamentos precários em permanecerem morando em seus domicílios e, ao mesmo tempo, de se beneficiarem de melhoras em acessibilidade e acesso a equipamentos públicos. Esse processo foi particularmente mais grave na cidades-sede  dos megaeventos esportivos como a Copa do Mundo e mais fortemente ainda no Rio de Janeiro. O que se verifica no momento atual, por exemplo, é o anúncio da nova etapa do MCMV e um silêncio em relação aos programas para favelas, o que se apresenta como uma forte ameaça ao direito à moradia.
Frente a esse quadro, quais os possíveis desdobramentos da crise em curso?
Frente ao desmoronamento das alianças partidárias que haviam marcado a última gestão, o governo tem se voltado para o apoio dos movimentos sociais e sindicatos que sempre constituíram uma base importante de suporte e legitimidade. Isso se refletiu, por exemplo, no papel mais central concedido aos movimentos de moradia na última edição do programa Minha casa Minha Vida. Na perspectiva da presidente Dilma conseguir se manter no poder e resistir à crise, seria provável que os movimentos pudessem ampliar os seus espaços e, nesse sentido, que a política habitacional pudesse ser aprofundada em seu sentido mais progressista.
Não é muito claro, nesse contexto, o que acontecerá com a urbanização de favelas e a regularização fundiária já que essas ações não se apresentam com centralidade na agenda dos movimentos de moradia e não existem atores sociais relevantes que se coloquem como porta-vozes desses interesses. De qualquer forma, é provável que, dada a crise econômica e as escassas perspectivas de sua superação no curto prazo, não existam recursos expressivos para investimentos em programa habitacionais e que a agenda do governo se concentre no MCMV.
Caso os desdobramentos caminhem no sentido aparentemente mais provável, com a aprovação do impeachment pelo Senado e a ascensão de um governo Temer, pode-se supor que haverá de imediato uma suspensão do MCMV3 e que qualquer possibilidade de continuidade só será viabilizada com utilização exclusiva de recursos do FGTS e, provavelmente, com redução dos subsídios praticados hoje.
Cabe lembrar que os recursos do FGTS são objeto de disputa entre vários interesses e que vêm sendo utilizados de forma importante no suporte à financeirização da política urbana (ROYER, 2016). Com a adoção de um rigoroso ajuste fiscal, restrição de despesas governamentais, e com possíveis medidas de restrição de ganhos de renda e de direitos trabalhistas, pode-se prever uma piora significativa nas condições de vida da população, o que se reflete, para o campo habitacional, na precarização das condições de moradia, aumento relativos dos custos de aluguel, ampliação da coabitação, crescimento do déficit, aumento da favelização, etc. Ao mesmo tempo, pode-se supor que ganharão força os movimentos neoliberalizantes nos governos locais, o que pode implicar num fortalecimento dos programas de remoção de favelas.
Finalmente, considerando-se um movimento crescente de mobilização desenvolvido por ativistas e movimentos sociais, uma forte denúncia de golpe direcionada ao movimento pró-impeachment e um relativo esvaziamento da luta anti-corrupção, que mobilizou a classe média e legitimou o impeachment, é previsível que a adoção de medidas de ajuste serão muito impopulares e que haverá forte atividade dos movimentos sociais e sindicatos na defesa dos direitos em geral, e dos diretos à moradia, em particular. Nesse sentido, os conflitos poderão se acirrar, particularmente considerando que um governo Temer, também denunciado por corrupção, não gozará de ampla legitimidade.
Por fim, dado o movimento amplo de negociação desenvolvido pelas forças pró impeachment na Câmara dos Deputados, é muito provável que as políticas urbana e habitacional voltem a ser vistas como possibilidades estratégicas de negociação de apoio parlamentar e de constituição de maiorias para a aprovação de medidas que certamente terão caráter altamente impopular. Nesse quadro, a política habitacional voltaria a apresentar o caráter clientelista, fragmentado e disperso, com pouco impacto efetivo sobre o déficit e a precariedade habitacionais que a caracterizou em vários momentos da nossa história política.
 E a luta pelo Direito à Moradia precisará voltar para as ruas.


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Adauto Lucio Cardoso
Adauto Lucio Cardoso, professor do IPPUR/UFRJ e integrante da Rede INCT Observatório das Metrópoles

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[1]
Essa medida tinha como objetivo viabilizar a formação de maiorias parlamentares para aprovação de projetos estratégicos de governo, que tendem ser instáveis no âmbito do chamado “presidencialismo de coalizão. Ver a respeito ROLNIK,  Raquel.  Democracia  no fio da navalha: limites e possibilidades para a implementação de uma agenda de Reforma Urbana no Brasil. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, v. 11, n. 2, Novembro 2009.
.
[2]
                         O Fórum Nacional da Reforma Urbana (FNRU) é uma coalizão de movimentos sociais, ONGs e organizações profissionais e acadêmicas que desde 1986 vinham debatendo e propondo novas diretrizes para a política urbana visando a redução do quadro histórico de desigualdades sociais e urbanas. Esse movimento se organizou por ocasião da elaboração da Constituição de 1988 e permanece atuante, com atividades fortes de lobby frente ao Congresso Nacional e também frente aos órgãos do Executivo ligados à política urbana.
[3]
                 Conforme BONDUCKI, Nabil. Do Projeto Moradia ao Programa Minha Casa Minha Vida. Teoria e Debate, n. 82. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2009.

[4]
                         O PIB tinha apresentado crescimento de 7,5% em 2010 e, embora as previsões fossem menos otimistas para 2011, o resultado foi ainda positivo, de 2,7%, conforme dados do IBGE, publicados em http://br.advfn.com/indicadores/pib/brasil/2015.
[5]
                         Esping-Andersen, comparando os regimes de bem-estar europeus, coloca a desmercantilização dos bens sociais como um indicador do tipo de regime, classificando como liberais os regimes que se baseiam no mercado como mecanismo de provisão.
[6]
                         Sendo um bem “não produzido” e dependente em larga medida de políticas de infraestrutura, como saneamento e transportes, a terra tende a se valorizar em decorrência do aumento da demanda, assim como se valoriza em função de melhorias de acessibilidade e infraestrutura realizados no entorno.
[7]
                         De acordo com a estrutura institucional proposta pela Constituição de 1988 e aprofundada pelo Estatuto da Cidade, é de responsabilidade dos municípios a utilização dos instrumentos de cumprimento da função social da propriedade. Como mostram todas as avaliações do MCMV, os municípios que receberam investimentos do programa não adotaram esses instrumentos de forma efetiva.
[8]
                         Ver relatórios disponibilizados no site www.habitacaoecidade-observatoriodasmetropoles.net.
[9]
                         O que pode ser claramente identificado pela análise da experiência chilena, bastante semelhante à brasileira. Ver DOERR, Marisol Brito. As transformações na política habitacional a partir das ditaduras militares. Causa ou efeito? Analise comparada Chile – Brasil. Dissertação de mestrado em Planejamento Urbano e Regional. Rio de Janeiro IPPUR/UFRJ, 2015.
[10]
                         Um dos elementos que marcam a boa receptividade do programa junto ao núcleo central do governo foi a agilidade nas realizações, o que permitia capitalizar ganhos políticos mais rapidamente. Já o PAC-Favelas, em parte por conta do modelo institucional adotado, onde as empreiteiras também têm larga hegemonia, acabou por apresentar problemas referentes aos prazos, custos e à qualidade das obras  DENALDI, Rosana et ali. Urbanização de favelas na Região do ABC no âmbito do Programa de Aceleração do Crescimento-Urbanização de Assentamentos Precários. Cadernos Metrópole, v. 18, n.35, pp. 101-118. São Paulo, 2016.

Yamini Benites e Jonas Lunardon/cc

09 de Maio de 2016







Conjuntura nacional XVI

17 de abril


discurso do deputado contra a tese do golpe


11 e 12  de maio




discurso do senador contra a tese do golpe

Do Blog Conversa Afiada

Íntegra do vídeo: Dilma peitou o Golpe! 


Saiba mais aqui

Vazou o vídeo da Dilma que o PSDB e o Solidariedade pediram à Justiça pra que não fosse exibido via

 



sábado, 21 de maio de 2016

33 mapas para conhecer os lugares

 Do hypeScience

Os lugares mais fotografados no mundo

mapas que a gente não aprende na escola

Nova York é o lugar mais fotografado do mundo. Roma, Barcelona, Paris e Istambul compõem o restante dos cinco destinos mais fotografados.

Lugares mais felizes do mundo

2
As carinhas dizem tudo.

Estações das Terra

3
A figura animada mostra a mudança do clima e as estações nos dois hemisférios da Terra.

Mulheres mais sexys do mundo

4
A legenda vai do verde escuro, que indica muito sexy, ao vermelho, que indica as menos sexys.

Frequência de cabelo ruivo na Europa

5
O mapa indica a incidência de mulheres ruivas por país no continente europeu. A legenda associa cores com a porcentagem de ruivas.

Tamanho médio do seio por país

6
Os países com mais mulheres com seios pequenos são representados na cor verde claro, até os países com as mulheres mais avantajadas, representados pela cor vermelha.

Tamanho médio do pênis por país

7
Os países com mais homens com pênis pequenos são representados na cor vermelha, até os países com homens mais avantajados, representados pela cor verde escuro.

Quantas cervejas você pode comprar com um salário mínimo na Europa, por país

8
Rosa claro são os países onde o salário mínimo compra menos cerveja. Os sortudos são os países representados em roxo. Vale lembrar que a Alemanha (legenda “Germany”) ainda não tem salário mínimo federal, e seus dados foram calculados baseados em um valor proposto que deve ser efetivo até 2015.

População mundial

Bandas de metal no mundo

10
As cores são associadas a quantas bandas de metais existem para cada 100.000 pessoas em cada país no mundo.

Resultados automáticos de buscas no Google para países da Europa

11
Mapa mostra como o Google completa o início da frase “Por que [tal país] é tão…?”.

Resultados automáticos de buscas no Google para estados dos EUA

12
Segue legenda em português:
Backwards = “ao contrário”
Bad = ruim
Big = grande
Boring = chato, entediante
Cheap = barato
Cold = frio
Conservative = conservador
Corrupt = corrupto
Democratic = democrático
Empty = vazio
Expensive = caro
Flat = plano
Good = bom
Haunted = assombrado
Hot = quente
Important = importante
Liberal = liberal
Poor = pobre
Racist = racista
Republican = republicano
Rich = rico
Small = pequeno
Smart = inteligente
Strict = rígido
White = branco
Windy = ventoso

Resultados automáticos de buscas no Google para países da Ásia

13
Os resultados para “Por que [tal país] é…” incluem “tão grande” (so big), “tão pequeno” (so small), “tão poluído” (so polluted), “chamado Geórgia” (called Georgia), “em guerra” (at war), “contra o Irã” (against Iran), “muçulmano” (muslim) etc.

Países classificados por suas tendências emocionais

14
Amarelo são os menos emocionais, e roxo escuro, os mais emocionais.

Pessoas com idades entre 25 a 34 anos que ainda vivem com seus pais na Europa

15
Legenda associa cores a porcentagem de pessoas com idades entre 25 a 34 anos que ainda vivem com seus pais na Europa.

Países onde a homossexualidade é um crime

16
Países em vermelho são os que consideram a homossexualidade um crime.

Melhores países para se nascer

17
Esse índice mostra os melhores países para se nascer, do melhor (azul escuro) até o pior (vermelho).

O mundo dividido em regiões com um PIB de 1 trilhão de dólares

18
Cada grupo unido por uma cor representa um PIB de 1 trilhão de dólares. Região que engloba o Brasil possui um pouco menos.

2% da população da Austrália vive nesta região

19
Região destacada no mapa é habitada por somente 2% da população do país.

Quais são as formações dos líderes mundiais de cada país

20
Mapa de 2013 mostra qual a especialidade ou área dos líderes dos pais do mundo todo. Legenda:
Azul: Ciências naturais/matemática
Roxo: Engenharia/arquitetura
Rosa: Economia/administração/negócios
Marrom: Ciências políticas/história/administração política
Amarelo: Direito/jurisprudência
Vermelho: Militar/inteligência(agente)/polícia
Verde escuro: Teologia/religião
Verde claro: Educação/ciências sociais/psicologia
Verde azulado: Literatura/linguística
Azul claro: Arte/cinema/música
Bege rosado: Medicina/farmácia
Verde amarelado: Biologia/zoologia/agronomia
Cinza: Interdisciplinar/educação aristocrata/genérico/outro/não especificado

Como o mundo se pareceria se o mapeamento fosse feito de cabeça para baixo

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Orientar o norte como o topo de um mapa é uma questão de convenção ao invés de ser algo correto. Um mapa no qual o sul fica na parte superior é tecnicamente tão correto quanto o contrário. Mapas com diferentes orientações têm aparecido em diversas culturas e épocas. A convenção de orientar o norte para a parte superior (e, portanto, leste à direita) foi provavelmente criada pelo astrônomo Ptolomeu.

Tipo de bebida alcoólica mais popular por país

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A tradução da legenda por ordem de aparição é: cerveja; vinho; destilados; outro; consumo de menos de 0,1 litros; sem dados.

O mundo dividido em sete regiões

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O mundo dividido em sete regiões, cada uma com uma população de um bilhão de pessoas.

Países que a Inglaterra já invadiu

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Todos os 22 países em todo o mundo.

Maior e menor tolerância racial por país

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As cores representam a porcentagem de pessoas por país que respondeu “pessoas de outra raça” quando tiveram que escolher que grupo de pessoas não iriam querer como vizinhos.

Países com direito à cidadania por nascimento

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Pretos são os países onde quem nasce lá é cidadão por direito; brancos são os países onde não há esse direito por nascimento; cinza são os países os quais não podemos dar essa informação.

Cigarros fumados por pessoa

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Na legenda, de cima para baixo, as cores representam os que mais aos que menos fumam.

Monarquias no mundo

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Vermelho = monarca é o chefe de estado; amarelo escuro: monarca tem alguns poderes; amarelo claro: monarca é pessoa representativa; azul: Commonwealth (comunidade de ex-colônias do Reino Unido, onde monarca é pessoa representativa); cinza: não há monarquia.

Distribuição global de ateus

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Cores representam porcentagens de pessoas que se dizem “ateus convictos”.

Onde as pessoas se sentem mais e menos amadas

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Cores representam porcentagens de pessoas que disseram se sentir “muito amadas” no dia anterior à pesquisa (de 2013).

Intolerância à lactose no mundo

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Cores representam porcentagens de pessoas com intolerância no mundo.

Os países mais populares do mundo para se visitar

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Cores vão de “mais de 50 milhões” (50M+) a “menos de 50 mil” (<50K). Cinza é sem dados.

Mapa de países oficialmente que não utilizam o sistema métrico

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Esses países estão em vermelho.
(http://hypescience.com/mapas/

Conjuntura nacional XV

Do Mídia Ninja

Noam Chomsky em entrevista para o Democracy Now: "É GOLPE"

Noam Chomsky, linguista, escritor e um dos maiores intelectuais políticos do mundo em entrevista para o Democracy Now! fala sobre o GOLPE no Brasil.

"Mas, como até mesmo o The New York Times ressaltou, Dilma Rousseff é talvez a única política que não roubou para se beneficiar. Ela está sendo acusada de manipulações no orçamento, que são práticas comuns em muitos países, tirar de um bolso para colocar em outro. Talvez seja uma prática ruim de alguma maneira, mas certamente não justifica impeachment.

Nós temos uma líder política que não roubou para enriquecer a si mesma, que está sendo acusada por uma gangue de ladrões, que o fizeram.”

Tradução: Lia Drumond


Conjuntura nacional XIV

Jornal GGN

The Young Turks explica o impeachment de Dilma


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QUE HORAS ELA VOLTA?





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sexta-feira, 20 de maio de 2016

Conjuntura nacional XIII

Do Blog Tijolaço

Dilma no encontro de blogueiros 



Conjuntura nacional XII

TeleSur

Lula: Dilma solo está suspendida por un capricho político

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Da RádioWeb Manawa



Conjuntura nacional XI

Do Blog O Cafezinho

“Golpeachment” derruba Dilma. Plutocracia brasileira queima 54 milhões de votos


"Fim de jogo? Calma. Ainda não. A frente antigolpeachment tem estratégia: convencer o 'Brasil profundo', as vastas massas de trabalhadores pobres, de que foi praticada uma ilegalidade; reconstruir a imagem de Rousseff como alvo de profunda injustiça; reenergizar a frente política progressista; assegurar que o governo de Brutus n. 1 fracasse; e criar condições para o homem que virá do frio nas eleições presidenciais de 2018."

por Pepe Escobar, no Russia Today

Nunca na moderna história política foi tão fácil "abolir o povo" e simplesmente apagar 54 milhões de votos votados em eleição presidencial livre e justa.

Esqueçam os 'papeizinhos pendurados'[1] das eleições na Florida em 2000. O dia de hoje viverá para sempre na história da infâmia em todo o Sul Global –, dia em que uma das mais dinâmicas democracias da região naufragou num regime plutocrático, recoberto por muito tênue verniz jurídico/parlamentar, com todas as garantias da lei e da Constituição entregues agora à mercê das mais sórdidas elites comprador.

Depois da nunca faltante maratona cenográfica, o senado do Brasil decidiu por 55 votos a 22, que a presidenta Dilma Rousseff deve ser julgada por "crime de responsabilidade" – relacionado a manobras contáveis que teriam sido usadas para mascarar resultados no orçamento do governo.

É a culminação de um processo que começou ainda antes de Rousseff ser reeleita no final de 2014 com mais de 54 milhões de votos. Já descrevi a gangue de perpetradores do que a criatividade dos brasileiros chamou de 'golpeachment' (mistura de "golpe" e impeachment) como as Hienas da Guerra Híbrida.

Esse golpeachment sofisticado – apoiado por um Colegiado Jurídico-Eleitoral de Inquisição – empurrou a Guerra Híbrida a níveis que ela ainda não alcançara.

A Guerra Híbrida como foi aplicada no Brasil exibiu elementos clássicos de 'revolução colorida'. Claro que não houve necessidade de implantar zonas aéreas de exclusão nem imperialismo humanitário para "proteger direitos humanos" –, para nem falar de provocar uma guerra civil no país-alvo. Mas considerando o alto nível de resistência do estado-vítima, onde há sociedade civil muito dinâmica, os planejadores da Guerra Híbrida nesse caso apostaram num mix de capitulação – e traição-usurpação – pelas elites locais, misturadas com "protestos pacíficos" e campanha incansável a favor dos golpistas por meio de uma mídia-empresa aliada do golpe. Podem chamar de 'Guerra Civil Light.'

O golpe gerou proveito fabuloso, em termos de custo-benefício. Agora, o sistema político brasileiro (imensamente corrupto) e todas as forças atualmente alinhadas pró-golpe do Executivo/Legislativo/Judiciário/mídia-empresa podem ser manipulados pelos suspeitos de sempre, a favor de sua agenda geopolítica.

Bem-vindos à mudança de regime & golpe light – em resumo: o que resta da política – como a guerra por outros instrumentos contra os países BRICS. Software novo, novo sistema operacional. Arrastando um patético corolário: se os EUA já são o Império do Caos, o Brasil alcança hoje, com alarido, o status de Sub-Império dos Canalhas.

Canalhas, canalhas a mancheias

Rousseff pode ser acusada de erros graves na gestão da economia, e de ter sido incapaz de qualquer articulação política no viveiro de tubarões que é a política (imensamente corrompida) do Brasil. Mas a presidenta não é corrupta. Cometeu erro grave no combate contra a inflação, de deixar que as taxas de juros subissem a nível insustentável; a demanda no Brasil, por isso, caiu dramaticamente, e a recessão virou norma. Dilma é o bode expiatório conveniente, a quem atribuir todas as responsabilidades pela recessão no Brasil.

Sem dúvida, Dilma pode ser declarada culpada por não ter qualquer Plano B para resistir contra a recessão global. O Brasil funciona, na essência, sobre dois pilares: exportação de commodities e empresariado local que não vivem se não estiverem agarradas às tetas do Estado. Infraestrutura, em geral, em situação de calamidade – o que se soma ao chamado "custo Brasil" que pesa sobre os negócios. Quando os preços das commodities desabaram, os fundos do Estado escassearam e tudo entrou em paralisia – crédito, investimentos, consumo.

O pretexto para o impeachment de Rousseff – ter supostamente transferido empréstimos de bancos públicos para o Tesouro, para mascarar o tamanho do déficit fiscal do Brasil – é frágil como nuvem de fumaça, para dizer o mínimo. Todos os governos ocidentais fazem a mesma coisa – e a lista inclui governos de Clinton, de Bush e de Obama.

A Operação Lava-Jato que já chega aos dois anos, foi criada para desvendar toda a corrupção do sistema político no Brasil – os crimes de colusão dos executivos da gigante petroleira Petrobras, com empresas de construção e financiamento de campanhas eleitorais. A Lava-Jato nada tem a ver com o movimento de golpeachment. Mas, sim, houve duas trilhas convergentes rumo a uma mesma destinação: criminalizar o Partido dos Trabalhadores e, se possível, consumar o assassinato político de Rousseff e de seu mentor, o ex-presidente Lula.

Quando o golpeachment chegou à Câmara dos Deputados – espetáculo de horrores insuperáveis –, Rousseff foi esquartejada pelas hienas da Guerra Híbrida do tipo "BBB" – bala, bíblia e boi [em inglês, BBC "bullet,"bible" e"cattle"], onde "bala" é a indústria de armas e segurança privada; "bíblia", é codinome para fanáticos evangélicos (pastores e fiéis); e "boi", designa o poderoso lobby do agronegócio.

As hienas BBB agem praticamente todos os partidos políticos no Brasil, oficce-boys serviçais das grandes empresas e – por último, mas não menos importante – poderosos agentes ativíssimos de corrupção. Todos esses se beneficiaram muito de campanhas políticas milionárias. De fato, toda a investigação da Operação Lava-Jato gira em torno de financiamento de campanhas, que no Brasil – diferente dos EUA, onde os lobbies são atividade legal – é 'negociação política' digna de "Os oito odiados" de Tarantino.

O senado brasileiro não é o que se poderia dizer "câmara alta" – no sentido de mais civilizada que outras câmaras. 80% dos membros são homens brancos – num país amplamente mestiço e miscigenado. Espantosos 58% dos senadores brasileiros estão sendo investigados por crimes conectados à Operação Lava-jato. 60% são herdeiros de dinastias políticas [deputados-filhos e deputados-netos, que na sequência convertem-se em senadores-filhos e senadores-netos ou sobrinhos ou apadrinhados (NTs)]. E 13% – que lá estão como suplentes – absolutamente nunca foram eleitos. Dentre os que votaram a favor do impeachment, 30, de 49, são investigados por algum tipo de problema com a lei. A maior parte das investigações têm a ver com lavagem de dinheiro, crimes financeiros e corrupção rampante. Renan Calheiros, presidente do Senado – que presidiu a sessão que determinou o afastamento da presidenta por até 180 dias, o golpeachment – é investigado em nada menos que nove linhas separadas de investigações na Operação Lava-Jato, além de ser objeto de dois processos criminais já em andamento.

Conheçam os Três Amigos da República de Bananas

Rousseff está com o mandato suspenso por no máximo 180 dias, enquanto uma comissão do Senado trabalha para golpichá-la por bem ou por mal. E entra o vice-presidente, príncipe coroado, presidente reserva Michel Temer – operador esperto, do tipo que se movimenta nas sombras – que Rousseff chamou de "usurpador".

Não há dúvidas de que esse Brutus provinciano agiu como usurpador, por definição que ele mesmo distribuía por Twitter, dia 30 de março do ano passado: "Impeachment é impensável, criaria crise institucional. Não há base judicial ou política para impeachment."

O governo Temer já nasceu com a marca do pecado original: é ilegal e massivamente impopular. Pesquisas de opinião sobre quantos brasileiros aprovam Temer, oscilam entre épicos 1-2%.

E já foi condenado, semana passada, por crime de violação de limites para financiamento de campanha eleitoral. Pode-se prever que esteja afogado no pântano de corrupção exposto por duas delações premiadas na Operação Lava Jato, acusado de participar de um esquema ilegal de compra de etanol; se condenado, pode tornar-se inelegível por oito anos. 60% dos brasileiros querem que Temer também seja impichado – no mínimo, sob as mesmas acusações levantadas contra Rousseff.

Brutus n.1 (Temer) nunca teria chegado a gozar seus 15 minutos de fama sem a colaboração ativa de Brutus n. 2 (o maior escroque do Brasil, ex-presidente da Câmara de Deputados, Eduardo Cunha – acusado de ter cometido crimes de perjúrio e recebimento de propinas, de manter contas ilegais na Suíça, o qual, agora, afinal, foi afastado pela Suprema Corte). Quem deu rédea solta à burocracia do processo do impeachment foi Brutus n.2, ao que parece por espírito doentio de vingança: o Partido dos Trabalhadores não lhe deu proteção quando começou a crescer o tsunami de acusações de corrupção. Brutus 2 usou todos seus muitos poderes – é coordenador de um 'movimento' para financiamento de campanhas dentro do Congresso – para tentar obstruir a investigação Lava Jato. E seu suplente, presidente interino da Câmara de Deputados do Brasil também está sendo investigado, acusado de receber propina.

Aí estão Temer, Cunha, Calheiros: esses Três Amigos são as verdadeiras estrelas da República de Bananas dos Canalhas/Escroques.

Ah, e que ninguém suponha que a Suprema Corte seja livre de vergonhas. O juiz Gilmar Mendes, por exemplo, é vassalo escandalosamente empenhado da plutocracia. Quando um advogado de defesa do governo do Brasil apresentou moção para suspender o impeachment, esse juiz disparou: "Ah, que peçam a Deus, ao Papa ou ao Diabo". Outro pomposo juiz recebeu ação para afastar Cunha da presidência da Câmara em dezembro de 2015. Mas só apreciou o pedido mais de quatro meses depois, quando toda a imundície do golpeachment já entrava em fase final, sem volta. E sentenciou que "não há provas de que tenha contaminado o processo de impeachment."

Por fim, coroando o monturo, temos a mídia-empresa brasileira dominante – cujo abre-alas é o tóxico império Globo – que gozosamente foi beneficiado e aproveitou-se do golpe militar de 1964.

Tudo isso para tentar obrar a restauração neoliberal

Wall Street – e a City de Londres – não conseguem disfarçar a excitação em torno do golpeachment, certas de que Brutus 1 Temer será alguma espécie de upgrade econômico. Pode até ser que se atreva a cutucar de leve as leis do Imposto de Renda no Brasil, kafkeanas e fazer alguma coisa para dar jeito no enorme buraco do sistema de aposentadorias. Mas o que a tal entidade mítica – os 'mercados' – e miríade de "investidores" babam só de pensar é a possibilidade de taxas de retorno estonteantes, tão logo o Brasil seja reaberto para especuladores e especulação. O jogo de Brutus n. 1 será uma orgia neoliberal, na verdade uma restauração, sem qualquer tipo de representação popular que atrapalhe.

A gangue do golpeachment irrita-se quando o pessoal lá é declarado conspirador e golpista. Mas fato é que não dão bola nenhuma para OEA, Mercosul, Unasul (todas essas organizações condenaram o golpe); e o Santo Graal, os BRICS, para os conspiradores e golpistas não valem um réis de mel coado. No governo de Brutus n. 1, o Ministério de Relações Exteriores, onde o golpe instalou um senador desprestigiado e em decadência, trabalhará para que o papel chave do Brasil entre os países BRICS naufrague, em benefício do Excepcionalistão.

Tudo o que se tem de saber é que nem o Prêmio Nobel da Paz Barack "lista de matar" Obama, nem a Rainha do Caos Hillary "Viemos, vimos, ele morreu" Clinton condenaram o golpeachment/mudança de regime light em curso. Perfeitamente previsível, considerando que a Agência de Segurança Nacional, NSA, do Excepcionalistão foram apanhadas espionando a Petrobras e pessoalmente a presidenta Dilma Rousseff –, evento do qual nasceu a investigação Lava Jato.

O porta-voz da Casa Branca Josh Earnest limitou-se às platitudes de rotina: "momento desafiador", "confiança nas instituições democráticas brasileiras" e até "democracia madura". Mesmo assim acrescentou, significativamente, que o Brasil está "sob escrutínio".

Claro, consumou-se com sucesso o estágio atual de uma estratégia muito sofisticada de Guerra Híbrida. Mas há incontáveis pontos de suspense pela frente. A investigação Lava Jato – presentemente conduzida em câmera lenta – ganhará velocidade conforme seja liberada a dose mortal de veneno de muitas delações premiadas ainda na prateleira, para gerar meios para criminalizar suficientemente, ainda que sem provas, não só Dilma Rousseff mas, também a peça chave no tabuleiro de xadrez: Lula.

Fim de jogo? Calma. Ainda não. A frente antigolpeachment tem estratégia: convencer o "Brasil profundo", as vastas massas de trabalhadores pobres, de que foi praticada uma ilegalidade; reconstruir a imagem de Rousseff como alvo de profunda injustiça; reenergizar a frente política progressista; assegurar que o governo de Brutus n. 1 fracasse; e criar condições para o homem que virá do frio nas eleições presidenciais de 2018.

House of Cards à brasileira? Boa aposta é que resolva-se com Lula derrotando as hienas da Guerra Híbrida, num abraço de cobra à Anaconda [orig. cobra clutch].*****



[1] Orig. Hanging chads, referência a cartões de votação que não foram completamente perfurados pela máquina de votar na Flórida, e foram arquivadas ainda com os 'papeizinhos' semiarrancados, que a perfuração devia ter arrancado completamente, mas não arrancou [NTs com informações de https://en.wikipedia.org/wiki/Chad_(paper)].
Conferência dos Geógrafos Latino Americanistas

Data: 05 a 11 de janeiro de 2014 (apresentações nos dias 07 e 08)
Lugar: Cidade do Panamá, Panamá
Envio de trabalhos: até 31 de outubro de 2013

Maiores informações na página na internet:
http://clagpanama2014.tamu.edu/call-for-papers
http://clagpanama2014.tamu.edu/